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No dia 09 de março de 2022, a população sul-coreana elegeu Yoon Suk-yeol (2022-atualmente), filiado ao Partido do Poder Popular (PPP), ao cargo de presidente da Coreia do Sul pelos próximos cinco anos. Vitorioso em uma acirrada disputa eleitoral, com uma diferença de votos ao redor de 0.8% com o segundo lugar, Yoon, que iniciou seu mandato no dia 10 de maio, propôs reformulações internacionais divergentes às implementadas pelo ex-presidente Moon Jae-in (2017-2022), integrante do Partido Democrático. No entanto, estaria Yoon Suk-yeol, que fez fama como procurador geral e é visualizado como um outsider sem experiência política, oficializando uma trajetória de ruptura aos posicionamentos da Coreia do Sul frente ao Japão, China e Coreia do Norte? A partir desse questionamento, esse artigo busca compreender como Yoon se tornou presidente sul-coreano e apresentar os desafios que suas propostas de política externa poderão encontrar.     

A emersão de Yoon Suk-yeol como um candidato de destaque na corrida presidencial esteve interligada, sobretudo, aos desfalques sócio-econômicos da gestão de Moon Jae-in. Apesar de ter atuado com prontidão em medidas de contenção da Covid-19 e organizado uma economia resiliente, que já retornou aos níveis de crescimento pré-pandêmicos, Moon falhou em impedir o endividamento familiar em razão do aumento exponencial dos custos de moradia. Em um caminho contrário às suas promessas relacionadas ao incremento da justiça social, a crise habitacional sul-coreana foi marcada pela duplicação dos preços de moradia, de 2017 a 2022, em partes da capital Seul, cujo valor do metro quadrado varia entre US$ 10.770 e US$ 38.880. 

Em 2021, mesmo perante investimentos bilionários do governo Moon para a geração de empregos, em sua maioria de meio período e temporários com menores salários, destacaram-se dados preocupantes sobre empregabilidade, ao passo que: 1) as taxas de desemprego entre jovens chegaram a 25%; 2) 46.8% da população entre 20 e 30 anos não procuraram emprego em maio por falta de trabalhos adequados; 3) o número de trabalhadores temporários cresceu 3.9% em um ano, totalizando 26.1% de toda a força de trabalho; 4) e, por fim, um recorde de 859.000 jovens estavam estudando para testes de recrutamento de emprego. 

Diante de tamanhos obstáculos, que, ressalta-se, foram intensificados no governo de Moon, mas possuem origens anteriores a essa gestão, como a problemática do endividamento familiar existente desde a década de 1960, um sentimento de desesperança se manteve presente na juventude sul-coreana, sufocada pela solidão e extremas pressões sociais para determinadas concepções de sucesso. Como reflexo desses constrangimentos, conservaram-se sub-grupos na sociedade que representam desde “as três desistências geracionais”, retratada pelo termo Sampo Sedae (삼포세대), em que os jovens renunciam formar relacionamentos, se casar e ter filhos, até, por exemplo, a Chilpo Sedae (칠포세대), denominada como “as sete desistências geracionais”, em que se adicionam abdicações sobre ter expectativas por um futuro melhor, relações interpessoais, casa própria e um bom emprego. Por conseguinte, em uma eleição marcada por votos ao PPP como protesto à gestão de Moon, Yoon Suk-yeol conquistou apoiadores ao instrumentalizar a desilusão de parcela da população em relação à conjuntura sócio-econômica nacional. 

Além disso, como estratégia política de destaque, Yoon aplicou um discurso misógino de antagonismo entre homens e mulheres, alcançando públicos que acreditavam que a igualdade de gênero violava valores meritocráticos e causava discriminação contra os homens. Dessa maneira, em um país cuja posição em matéria de igualdade de gênero foi 102ª entre 156 nações analisadas em 2021, Yoon proferiu discursos controversos como: 1) prometer fechar o Ministério de Igualdade de Gênero e Família; 2) ampliar as punições a quem falsamente acusar alguém por crimes sexuais; 3) e declarar que as feministas são culpadas pela baixa taxa nacional de natalidade. Como importante resultado para sua eleição, 59% e 53% dos homens, respectivamente, na casa dos vinte e trinta anos votaram em Yoon, enquanto, por exemplo, somente 34% das mulheres na faixa dos vinte anos tiveram a mesma decisão. 

Similar ao âmbito doméstico, Yoon apresentou novos caminhos a serem pavimentados na política internacional sul-coreana. Desde 2011, após a Corte Constitucional da Coreia do Sul ter determinado a necessidade do governo reivindicar compensações às ex-mulheres de conforto1)Mulher de conforto é um eufemismo utilizado para indicar as meninas e mulheres que sofreram escravização sexual por parte do Império do Japão. frente ao Japão, sucessivas gestões presidenciais, desde Lee Myung-bak (2008-2013), a Park Geun-hye (2013-2017) e Moon Jae-in, implementaram o debate colonial em suas diplomacias, ocasionando, em diversos momentos, fricções nipo-sul-coreanas defronte a perspectivas históricas divergentes (DIAS, 2020). Ao passo que o ex-primeiro-ministro japonês Shinzō Abe (2012-2020) e Moon desgataram a confiança bilateral, principalmente através de restrições comerciais impulsionadas por discordâncias vinculadas à necessidade, ou não, de retratações monetárias aos sul-coreanos forçados a trabalhar em empresas japonesas durante a colonização nipônica, além da questão das ex-mulheres de conforto, Yoon Suk-yeol prometeu em campanha que se esforçará para reatar as relações da Coreia do Sul com o arquipélago japonês em uma diplomacia orientada para o futuro. 

Nesse seguimento, Fumio Kishida (2021-atualmente), primeiro-ministro do Japão, concordou no restabelecimento dos laços nipo-sul-coreanos, destacando a importância de cooperação bilateral e trilateral com os EUA, haja vista o contexto regional marcado pela maior assertividade chinesa, ameaças militares norte-coreanas e o conflito entre Rússia e Ucrânia. Ademais, Kishida reconheceu a necessidade de solucionar pendências bilaterais, tais como as relacionadas aos trabalhos forçados. Sem embargo, com uma extensa presença da direita conservadora na Câmara Alta japonesa, somada às memórias históricas, por vezes, conflitantes entre cada nação, o desafio está em como abordar a colonização de forma legítima. Para tanto, ao contrário do falho Acordo das Mulheres de Conforto de 20152)Inesperadamente celebrado em dezembro de 2015 por Park Geun-hye e Shinzō Abe, o Acordo das Mulheres de Conforto intensificou o descontentamento da população sul-coreana quanto às abordagens aplicadas para a reconciliação do passado colonial, em especial, pelas organizações civis e as senhoras sexualmente abusadas não terem participado do processo de negociação. Em 2017, contrariando a cláusula do acordo que determina sua irreversibilidade e dando atenção às demandas populares imersas em ressentimento, Moon Jae-in determinou o Acordo como inválido., é essencial que, ao menos, as organizações civis e vítimas sul-coreanas participem das negociações, bem como o governo e as empresas japonesas compensem financeiramente as senhoras e os trabalhadores vitimados. Ao mesmo tempo que a resolução do passado colonial seria um marco para o progresso das relações bilaterais, é, justamente, nela que ambas nações devem ter maior cautela.           

No tocante à China, a principal parceira comercial da Coreia do Sul, Moon Jae-in buscou reafirmar a relação bilateral afetada pela assinatura sul-coreana do Terminal de Defesa Aérea de Alta Altitude (THAAD) em 2016 (BRITES, 2018) e manteve uma estratégia de balancear, sem criar conflitos, cooperações com as potências chinesa e estadunidense. Por outro lado, Yoon Suk-yeol, ideologicamente, almeja robustecer vínculos com as democracias e economias liberais, sobretudo os Estados Unidos, em detrimento de governos considerados autocráticos. A partir desse alinhamento, Yoon se posicionou favorável em tópicos sensíveis à China, tais como comprar novas baterias estadunidenses para o THAAD e aprofundar suas relações com o Diálogo de Segurança Quadrilateral (QUAD), composto por Estados Unidos, Japão, Índia e Austrália. 

Outrossim, Yoon pretende fortalecer a cooperação sul-coreana com os Estados Unidos nas matrizes de defesa, trocas econômicas e proteção da ordem democrática, apresentando uma tendência de realinhamento e de maiores compromissos à nação estadunidense. Consequentemente, para evitar desestabilizações nas relações sino-sul-coreanas e retaliações econômicas chinesas, a Coreia do Sul deve-se atentar em não se comprometer em decisões que provoquem sentimentos de insegurança à China, tais como o interesse de Yoon no desenvolvimento do THAAD que já sofreu críticas chinesas.   

No que concerne à Coreia do Norte, a política externa de Yoon Suk-yeol pode ocasionar uma quebra do teor conciliatório que estava sendo implementada. Durante o governo de Moon Jae-in, notáveis esforços para a implementação de uma détente inter-coreana foram aplicados, tais como: 1) a realização, em um período de um ano, de três reuniões com o líder norte-coreano Kim Jong-un (2012-atualmente) e o ex-presidente sul-coreano ter facilitado o primeiro encontro entre Estados Unidos e Coreia do Norte; 2) a tentativa de equilibrar as relações sino-estadunidenses para engajar ambas nações a desenvolverem relações construtivas com a nação norte-coreana; 3) e a busca pela construção de autonomia inter-coreana sem interferências estrangeiras (BOTTO, 2020). Ademais, simbolicamente representando unidade, e, até mesmo, passos para a reunificação, ambas Coreias marcharam juntas sob uma única bandeira na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018. Todavia, com o advento da pandemia de Covid-19 em 2020, Moon aumentou suas atenções ao âmbito doméstico em detrimento da esfera geopolítica, reduzindo as capacidades sul-coreanas de promover um ambiente regional estável e de maiores diálogos internacionais com a Coreia do Norte, que até maio de 2022 já realizou 15 testes balísticos.     

Em contrapartida, Yoon Suk-yeol defendeu que a aplicação da abordagem mais flexível com a Coreia do Norte foi um fracasso. Ao longo de sua campanha, caso se suspeitasse que mísseis norte-coreanos poderiam ser enviados à Coreia do Sul, Yoon declarou que existiria a possibilidade dele retomar, caso eleito, o sistema de defesa de três eixos pautado nos seguintes componentes: 1) ataques preventivos em locais norte-coreanos com capacidades nucleares e balísticas; 2) interceptação de mísseis; 3) e, por fim, a retaliação massiva do território norte-coreano, caso a Coreia do Sul seja atacada. Enquanto Moon substituiu essa tática pelos sistemas de proteção a ataques nucleares e armas de destruição em um caráter, portanto, defensivo, observou-se que uma postura mais agressiva de Yoon pode ser o motor para o escalonamento de tensões securitárias com a Coreia do Norte. Ademais, ao Yoon destacar que as atividades norte-coreanas devem ser enfrentadas com uma maior cooperação sul-coreana, inclusive militar, com os Estados Unidos, coloca-se em dúvida se a Coreia do Norte, por se sentir ameaçada, adotaria uma postura reativa de desenvolvimento bélico e nuclear para a proteção do território nacional.   

Embora Yoon Suk-yeol tenha saído vitorioso das eleições presidenciais, ressalta-se que o presidente começou o seu mandato com diferentes obstáculos que podem impedir a efetivação de suas propostas. Erodindo a sua popularidade no âmbito doméstico, de prontidão, em maio de 2022, somente 55% da população acreditava que a gestão de Yoon seria positiva, em um número cerca de 30% menor que seus antecessores; os ministros da educação e da saúde renunciaram suas nomeações por controvérsias éticas, bem como a imagem do ministro da justiça está manchada por conta de um escândalo familiar; além do presidente desejar realocar seu escritório oficial da Casa Azul para o Ministério da Defesa, o que custaria ao redor de US$ 41 milhões. Com esse início de mandato já conturbado, se tornou incerta a disposição de Yoon em implementar suas promessas de campanha, caso isso acarrete em maiores críticas ao seu governo, como ocorrido, por exemplo, com o Ministério de Igualdade de Gênero e Família que, ao invés de ser abolido, será reestruturado. Por fim, em um ambiente político desfavorável, a oposição detém, até 2024, 172 dos 300 assentos da Assembleia Nacional, podendo bloquear projetos de Yoon e demonstrando a importância da cooperação bipartidária para enfrentar, por exemplo, desafios socioeconômicos. 

Diante de tamanhas incertezas e obstáculos, finaliza-se este breve artigo com indagações referentes aos desafios que a política externa de Yoon poderá encontrar. Nesse sentido, em relação ao Japão, até que ponto um presidente sul-coreano autoproclamado como anti-feminista pode sanar uma ferida colonial que aborda, justamente, dentre suas diferentes esferas, a questão da violência de gênero como no caso das ex-mulheres de conforto? Sobre Pequim e Washington, de que maneira a Coreia do Sul pode alinhar sua diplomacia aos Estados Unidos e enfrentar a Coreia do Norte sem criar desavenças sino-sul-coreanas? É possível Yoon se afastar da China sem ocasionar impactos econômicos negativos? Por último, uma disposição agressiva de Yoon frente à Coreia do Norte não ocasionaria maiores acirramentos bilaterais, ao invés de promover a desnuclearização norte-coreana? Somente analisando os próximos episódios, descobriremos, afinal, se uma reorientação sul-coreana se concretizou. 

 

Referências Bibliográficas

BOTTO, Kathryn. Moon Jae-in: Putting North Korea at the Center. In: ROZMAN, Gilbert (Ed.). Joint U.S.-Korea Academic Studies: East Asian Leader´s Geopolitical Frameworks, New National Identity Impact, and Rising Economic Concerns with China. Washington: Korea Economic Institute of America, 2020, p. 83-99. Disponível em: https://keia.org/publication/moon-jae-in-putting-north-korea-at-the-center-2/. Acesso em: 14 jun. 2022.

BRITES, Pedro Vinícius Pereira. As dinâmicas regionais do Nordeste Asiático e o pivô norte-coreano. 2018. Tese (Doutorado em Estudos Estratégicos Internacionais) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Ciências Econômicas, Porto Alegre, 2018. 270 f. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/183290/001078039.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 21 fev. 2022.

DIAS, Maurício Luiz Borges Ramos. A Política Externa de Shinzō Abe para a Coreia do Sul (2012-2020): desafios históricos não superados. In: SimpoRI – 2020, Anais eletrônicos […] Rio de Janeiro: Lemos Mídia, 2020. P.320-333. Disponível em: http://lemosmidia.com.br/produto/e-book-a-reestrutura-da-ordem-internacional-um-novo-mundo-em-emergencia-e-de-emergencias/. Acesso em: 10 jun. 2022.

Notas   [ + ]

1. Mulher de conforto é um eufemismo utilizado para indicar as meninas e mulheres que sofreram escravização sexual por parte do Império do Japão.
2. Inesperadamente celebrado em dezembro de 2015 por Park Geun-hye e Shinzō Abe, o Acordo das Mulheres de Conforto intensificou o descontentamento da população sul-coreana quanto às abordagens aplicadas para a reconciliação do passado colonial, em especial, pelas organizações civis e as senhoras sexualmente abusadas não terem participado do processo de negociação. Em 2017, contrariando a cláusula do acordo que determina sua irreversibilidade e dando atenção às demandas populares imersas em ressentimento, Moon Jae-in determinou o Acordo como inválido.
Mauricio Dias

Escrito por

Mauricio Dias

Mestrando no programa de pós-graduação San Tiago Dantas (UNESP - UNICAMP - PUC-SP) em Relações Internacionais. Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA) com período de mobilidade acadêmica na Universidad de San Buenaventura, Colômbia. Foi estagiário docente na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 2021. Na área da pesquisa, é membro do Grupo de Estudos de Índia e Ásia Oriental - GesIAO desde 2016, do Observatório de Regionalismo (ODR) a partir de 2020, assim como, desde 2021, da Curadoria de Assuntos do Japão e do Observatório de Conflitos. Possui como agenda de interesse: política externa do Japão e da Coreia do Sul, xintoísmo, construção de identidade nacional, política de memória, regionalismo e meio ambiente. Foi membro da Diretoria da Associação de Pós-Graduandos e Pós-Graduandas Olga Benário do PPGRI San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP) para a gestão de 2021. No Japão, representou o Brasil no programa intercultural do governo japonês denominado como Ship for World Youth (SWY) em 2020 e realizou intercâmbio para o aprendizado do idioma de japonês na cidade de Kanazawa em 2015.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/4060044353605116
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