O papel do México no contexto da Integração Latino-Americana: uma interpretação na crise dos processos pós-liberais de Regionalismo

Fonte: El Horizonte

Em um período ainda não muito distante da história latino-americana, surgiram em seu cenário político vários planos de integração e cooperação que buscavam novas abordagens aos projetos regionais, que incluíam pautas e ações comuns de cooperação em defesa, segurança, infraestrutura, cultura, desenvolvimento social, energia, meio-ambiente, etc. Tal característica de cunho mais político dessas iniciativas, abrindo mão das intenções majoritariamente comerciais dos processos anteriores, caíram na convenção de serem chamados de “regionalismos pós-liberais”, em alusão à superação dos movimentos de integração ocorridos durante a década de 1980 e 1990, caracterizados pela abertura comercial e econômica dos países (SERBIN, 2009).

É nesse período do início da década dos anos 2000 que surgem os grandes expoentes dessas iniciativas, calcadas principalmente por um protagonismo brasileiro e venezuelano, tais como: a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) e a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (ALBA-TCP). Tais projetos estão baseados em um forte papel do Estado na formação dessas alianças e em seu papel para o desenvolvimento nacional. Ao contrário do que se era proposto no período liberal dos anos 1990, o Estado, ao invés do primor da inciativa privada, é o bastião central para a cooperação e desenvolvimento, promovendo tanto seu crescimento como sua distribuição. É em tal mindset econômico e político em que países como Argentina, Paraguai, Uruguai, Brasil, Venezuela, Equador e Bolívia se inserem ao promover questões em âmbito regional, negociações de caráter pós-liberal, características dos governos de esquerda e centro-esquerda que ocupavam os gabinetes presidenciais (KINGSTONE, 2011).

Em meio a essa ascensão dos blocos pós-liberais no Sul do continente americano, o México buscava sua oportunidade para evitar o seu isolamento. Durante o período do Governo Calderón (2006-2012), o país propôs em seu Plano Nacional de Desenvolvimento uma aproximação, de qualidade imprescindível, com os países latino-americanos para sua diversificação comercial. Com uma economia altamente atrelada à economia estadunidense, o governo Calderón buscava por meio de novos tratados comerciais uma ampliação de sua rede de livre-comércio para incentivar as exportações mexicanas a alcançarem novos destinos, principalmente os que fossem competitivos (LEVY, 2009). É nesse carácter de busca de aproximação política que, após a crise de 2008, o México aponta propostas para dois caminhos: a Aliança do Pacífico e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribe (CELAC).

É interessante notar que a CELAC, considerada um projeto largo e ambicioso, muitas vezes enaltecido pelos governos de Evo Morales e Rafael Correa, tenha sido idealizada pelo país que hoje sofre críticas do primeiro. A CELAC, primeiro organismo que contém a presença de todos os países latino-americanos sem interferência dos Estados Unidos, encaixou-se interessantemente nos moldes dos projetos pós-liberais, com o objetivo de discutir temas políticos comuns, fazendo seu papel de sucessor do Grupo do Rio, congregando a voz dos países da região em temas como o embargo econômico a Cuba e à questão das Malvinas. Além da Bolívia e do Equador, Brasil e Venezuela também adotaram com satisfação o projeto, cumprindo ao menos a intenção mexicana de aproximar-se politicamente da região, quebrando o seu isolamento.

Entretanto, o México buscou mais do que um canal privilegiado de conversação e consulta, buscou necessariamente acordos comerciais. E, assim, que surge a oportunidade da Aliança do Pacífico em 2011. Lançada conjuntamente com Chile, Colômbia e Peru, a Aliança busca não apenas a liberalização de bens e produtos, mas a livre circulação de fatores de produção, integração financeira e consultas econômicas, ou seja, um retorno à integração liberal na América do Sul. Compreendida como um “cisma” nos projetos de integração regional (FIORI, 2013), a Aliança trouxe uma alternativa aos governos dos projetos pós-liberais, cujo surgimento fora interpretado ou pelo interesse (por Paraguai e Uruguai), pelo rechaço (países do ALBA), ou pela desconfiança e rivalidade (Brasil) (BERNAL-MEZA, 2015).

Não obstante, a partir de 2012, o movimento reverso ao pós-liberal e da esquerda começa a surgir nas Américas. A “volta liberal” no cenário sul-americano, com início no impeachment de Fernando Lugo no Paraguai, aponta para a modificação do cenário da composição interna dos presidentes, o que por fim afetam também os panoramas regionais. Essa crise é amplamente calcada no declínio econômico dos principais países desses projetos (Brasil, Argentina e Venezuela), derivadas da queda dos preços das commodities, bem como a insustentabilidade a longo prazo do aumento do gasto público e instabilidade política interna. E, em tal contexto, a Venezuela não detém mais recursos para manter o ALBA e sua estabilidade econômica, a Argentina passa por uma transição de governo, para um de raiz próxima ao neoliberalismo, e o Brasil passa por uma crise econômica e política que faz com que as elites agora governantes mudem o rumo de sua Política Externa.

Assim o México assume um novo e interessante papel no cenário latino-americano. Antes vinculado pelos governos de nova-esquerda como possível “fantoche dos EUA”, o país mantém hoje um papel de pivô e propagandista da Aliança do Pacífico e de um modelo liberal de integração. O atual presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, destacou em suas visitas a Argentina e Chile a importância da congruência e busca da complementariedade das economias e que seriam desejosos modelos comerciais mais abertos. Além disso, antes desejado apenas por Paraguai e Uruguai, uma aliança Mercosul-Aliança passa pelo discurso do atual chanceler brasileiro, José Serra, e do presidente argentino Mauricio Macri.

Em um momento de imobilismo das instituições pós-liberais e crises de seus principais representantes, o México deixa de ter seu isolacionismo para buscar um maior protagonismo em um vácuo de ação deixado pelos antigos atores. O país não será um líder ou um hegemon regional, ainda mais pelas dificuldades presentes em sua economia altamente associada à dos Estados Unidos. Entretanto, é interessante notar sua maior presença nas visitas presidenciais, bem como como a congruência de planos entre seus interesses e a dos governos dos outros dois grandes países latino-americanos, o que reverbera até nos discursos de flexibilização do Mercosul. Ao que parece, confundindo-se com um instigador de “cisma”, o México se assemelha a um estimulador para a convergência dos interesses liberais na região.

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