Imagem retirada do site China y America Latina

“Quem come do meu feijão, prova do meu cinturão!”, diziam os pais aos filhos, há muitos anos, principalmente em cidades interioranas do Brasil, deixando claro os papéis de quem mandava e quem deveria obedecer (esclareço aqui que eu e meus colegas pesquisadores do Observatório de Regionalismo repudiamos toda e qualquer forma de violência, e somos favoráveis à dignidade de todas as pessoas). Por analogia, o bordão popular se aplica ao contexto geopolítico da América Latina que, desde o início da década de 2010 transformou-se em palco de uma disputa por influência cultural, econômica e política, protagonizada por China e Estados Unidos via aportes financeiros em infraestrutura e áreas estratégicas, como a tecnologia 5G e insumos de saúde. 

Em termos institucionais, a China foi a precursora, com a iniciativa Cinturão e Rota, inaugurada em 2013; seis anos após, os norte-americanos estruturaram o programa América Cresce (Growth in the Americas), como um dos vetores do America First, mote do governo Donald Trump.

Em 08 de maio de 2018, sob a gestão do Chanceler Rex Tillerson, a Estratégia do Comando Sul (SOUTHCOM, na sigla em Inglês), braço do Departamento de Defesa dos Estados Unidos responsável por monitorar atividades na América Latina, no Canal do Panamá e no Caribe, publicou o documento “Promessa Duradoura para as Américas” , descrevendo a China como sinônimo de corrupção, violação dos direitos humanos, risco à democracia, à soberania e ao desenvolvimento econômico dos países latino-americanos. Os americanos, a seu turno, figuram como os paladinos da prosperidade da região. É nesse contexto, de contra-ataque aos ímpetos chineses, que surge o América Cresce.

Estruturado em agosto de 2019 (em atividade desde 2018), e oficialmente anunciado pelo governo dos Estados Unidos no dia 16 de dezembro do mesmo ano, o América Cresce tem como prioridade catalisar o acesso de países latino-americanos a investimentos do setor privado em projetos de aeroportos, portos e rodovias, nos setores de cibersegurança, energia, gás e petróleo, bem como gerar empregos. 

A iniciativa é coordenada pelos seguintes órgãos do Estado: Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional; a Corporação de Investimento Privado Internacional; e os Departamentos de Comércio, de Energia, do Estado, e do Tesouro. Este plano de ação não possui um fundo próprio para realizar investimentos e empréstimos, buscando unificar os acordos e contratos já em curso. 

O programa América Cresce tem como signatários 14 nações, a saber: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Guatemala, El Salvador, Equador, Guiana, Honduras, Jamaica, Panamá, Suriname e Uruguai. 

A título comparativo, é interessante destacar que a iniciativa chinesa do Cinturão e Rota envolve 16 países da América Latina e Caribe; são eles: Antígua e Barbuda, Barbados, Bolívia, Chile, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guiana, Jamaica, Panamá, Peru, República Dominicana, Trinidad e Tobago, Venezuela e Uruguai. [Embora algumas reportagens informarem que 19 países aderiram ao Cinturão e Rota; tal informação não se confirma. Essas próprias reportagens se contradizem, relacionando apenas os países aqui descritos e omitindo os motivos da ausência dos países restantes.]

Segundo o professor Robert Evan Ellis, pesquisador da relação trilateral América Latina-China-Estados Unidos, o programa americano não almeja rivalizar com as empresas estatais chinesas no campo da infraestrutura, mas objetiva impulsionar os investimentos privados a fim de gerar prosperidade e, agindo com transparência e conforme os princípios da boa governança, comprovar ser uma opção mais benéfica e sustentável para a região do que as “práticas às vezes predatórias da China.” 

Ellis continua seu depoimento, afirmando que o América Cresce fomentará o suporte financeiro por empresas privadas americanas no mundo todo, e priorizará as necessidades do países receptores; ele finaliza dizendo que, ao contrário do Cinturão e Rota, que tem como finalidade de conectar o mundo para que os chineses obtenham vantagens, a iniciativa América Cresce não foi planejada para beneficiar corporações dos Estados Unidos. 

Nas palavras de Mauricio Claver-Carone, à época Diretor Sênior do Conselho Nacional de Segurança para o Ocidente, e atual presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), “com o América Cresce, a região [América Latina] cresce conosco [EUA]”.

A perspectiva de Robert Ellis mostra-se contraditória, pelo fato dele ser um dos expoentes de uma corrente acadêmica que enxerga a atuação da China ao redor do planeta, e principalmente na América Latina e Caribe, como ameaçadora aos interesses dos Estados unidos e dos países do continente. [Além dos escritos de Evan Ellis, vale mencionar os posicionamentos de Nikki Haley e Clyde Prestowitz.]

Na concepção da pesquisadora Margaret Myers, há indícios de que a China perdeu o interesse pela América Latina. Conforme um dos seus estudos, patrocinado pela Universidade de Boston e pela organização sem fins lucrativos Inter-American Dialogue, os bancos de desenvolvimento chineses investiram, entre 2005 e 2015, uma média de US$ 1,7 bilhão por ano. A partir de 2016, nota-se um declínio neste montante, de US$ 275 milhões em 2019. Em 2020 não foi concedido nenhum empréstimo para a região. 

Um enfraquecimento também ocorreu quanto ao comércio de mercadorias. Se de 2000 a 2013 houve um crescimento das negociações bilaterais numa média de 30% ao ano, no período 2014-2019 essa média diminuiu, retornando ao patamar de 2014 apenas em 2019.

A pesquisadora acredita que, considerando o alto grau de dependência mútua entre China e América Latina, a relação entre chineses e latino-americanos é um caminho sem volta, ou ao menos de difícil retorno. 

A partir das informações anteriormente mencionadas e da leitura do trabalho de Daniel Morales Ruvalcaba, acadêmico mexicano, publicado na forma do artigo “La política exterior de Joseph Biden hacia América Latina: un análisis prospectivo al inicio del nuevo gobierno”, infere-se que, embora o América Cresce seja criação da administração Trump, este governo representa um período de abandono e falta de estratégia política para a região.

Ao longo de seu mandato, Trump visitou o continente uma só vez, por ocasião da 13ª reunião da Cúpula do G20, sediada por Buenos Aires em 2018. Seu Vice-presidente, Mike Pence, esteve em países latino-americano em nove oportunidades [Pence visitou Argentina, Brasil, Colômbia por duas vezes, Chile, Equador, Guatemala, Panamá e Peru.].

Diferentemente de ambos os políticos, Biden tem um conhecimento sólido acerca das nações que compõem a América Latina, angariado ao longo quase 50 anos de carreira política como Senador (1973-2009), membro da Comissão de Relações Exteriores do Senado americano (presidiu a Comissão em 2001, 2001-2003 e 2007-2009) e como vice-presidente (2009-2017); neste último cargo, visitou a região em 19 ocasiões [México (4 vezes); Brasil e Colômbia (3 vezes); Chile e Guatemala (2 vezes); Panamá, Costa Rica, Trinidad e Tobago, República Dominicana e Honduras (1 vez).] (nenhum outro Presidente ou Vice possui mais visitas). Desta forma, percebe-se que o território da América Latina é importante para o atual presidente dos Estados Unidos.

Essas informações nos levam a problematizar o futuro do América Cresce sob o governo Biden. Como Senador, as prioridades de Biden foram temas relacionados a democracia e a proteção dos direitos humanos; seguidos por assuntos atrelados a segurança, assistência militar e o controle de armamentos; num terceiro eixo, a luta contra o narcotráfico e as drogas ilícitas; ultimamente, temas variados referentes a disputas territoriais, meios de comunicação e terrorismo. Como Vice-Presidente os assuntos prioritários se mantiveram iguais. A partir da campanha eleitoral que o levou à Casa Branca, deve-se acrescentar a questão da mudança climática e do meio ambiente.

 

Tabela – Temas relacionados com América Latina (por país) mencionados por Joseph Biden durante sua campanha presidencial e como Presidente eleito, 2019-2021

Elaboração: Daniel Ruvalcaba e Xiaomin Xu (2021, p.14, tradução livre).

 

O gráfico concerne um período que vai até o dia 20 de janeiro de 2021, quando Joseph Biden tomou posse como Presidente. Desde então, Biden tem fomentado a cooperação hemisférica, embora haja tensões políticas com Cuba e Venezuela. Após quase sete meses de governo, Biden encontra-se focado nos embates ideológicos e comerciais diretos com a China, no combate à COVID-19 e, no plano interno, com sua ampla e audaciosa agenda socioeconômica, o que garantirá popularidade e capital político ao presidente e ao seu Partido Democrata (RUVALCABA, 2021).

Embora valorize (ao menos no discurso) a importância econômica da América Latina, cessando as declarações de tom autoritário e o desdém, não há diretrizes políticas claras para o continente, que deve refletir sobre o sua real relevância para as políticas externas de Estados Unidos e China, que parece menor do que se imagina. 

É bem provável que não estejamos comendo o feijão de ninguém, e se estivermos, certamente o comemos numa quantidade que nos deixará famintos muito em breve. Quanto ao cinturão, ele tem nos apertado e fustigado, sem nos encaminhar por uma rota verdadeiramente próspera e segura. 

A América Latina é uma região com recursos naturais e materiais propícios ao alcance da prosperidade econômica que tanto almeja. A inabilidade de alguns governos quanto à organização estratégica e aplicação de suas políticas externas emperra a concretização desse objetivo, e nos prende a querelas ideológicas e projetos de poder locais mesquinhos.

Referências

MORALES RUVALCABA, Daniel. La política exterior de Joseph Biden hacia América Latina: un análisis prospectivo al inicio del nuevo gobierno. Izquierdas, no. 50, 2021.

Breno Silva Oliveira

Escrito por

Breno Silva Oliveira

Bacharel em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mestrando em do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas - UNESP, UNICAMP e PUC-SP. Suas pesquisas se dedicam à relação trilateral entre América Latina, China e Estados Unidos; e à diplomacia do futebol.