Karina Lilia Pasquariello Mariano
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP
karina.mariano@unesp.br

Marcela Franzoni
Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e Ibmec-SP
marcelafranzoni19@gmail.com

João Roberto Fava Júnior
Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas
(UNESP/UNICAMP/PUC-SP)
joao.fava@unesp.br

O livro Enfrentando la competencia y la divergencia. Brasil y México en el contexto del regionalismo latinoamericano, publicado pelo CRIM/UNAM na coleção Câmbio mundial, Globalización y Desarrollo, reúne estudos que exploram como as duas maiores economias da América Latina têm lidado com o cenário global das últimas décadas. No capítulo “Brasil y México: dos modelos para América Latina”, propomos uma leitura sobre os caminhos percorridos por ambos os países desde o final do século XX — caminhos que, embora partam de realidades semelhantes, resultaram em projetos muito distintos de inserção internacional.

Brasil e México compartilham muitas características: são nações populosas, industrializadas, com vastos territórios e uma longa história de instabilidade política e desigualdade social. Ambos viveram períodos de ditaduras, adotaram políticas de substituição de importações e aspiraram à liderança regional. Ao longo de mais de um século de relações diplomáticas — que inclui acordos como o Tratado de Extradição de 1906, o Convênio Cultural de 1935 e o Acordo de Cooperação Industrial de 1965 — o intercâmbio entre os dois países foi intenso na cultura e na ciência, mas tímido na economia.

Ao chegarem ao fim da Guerra Fria, as duas economias se viram diante de um mesmo desafio — adaptar-se à globalização — e tomaram rumos distintos. Essa bifurcação estabeleceu condicionantes que são fundamentais para entender por que as relações entre os dois países continuam marcadas por aproximações pontuais e longos períodos de distanciamento. Apenas nos anos 1990 surgiram temas vinculados à agenda global, como o acordo ambiental de 1997 e o acordo de combate ao narcotráfico de 1999, revelando como as prioridades externas de ambos passaram a se alinhar mais ao Norte do que à região.

No caso mexicano, a década de 1990 representou uma verdadeira ruptura. Pressionado pela crise da dívida e pelos choques do petróleo, o país abandonou o modelo de desenvolvimento voltado para dentro e aderiu às reformas neoliberais impulsionadas pelos Estados Unidos. A assinatura do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN ou NAFTA) em 1994 selou o novo alinhamento: México passou a integrar as cadeias produtivas norte-americanas e consolidou sua dependência econômica do mercado estadunidense. Essa mudança não foi apenas econômica — representou também o abandono de uma tradição diplomática baseada na autonomia e na não intervenção, expressa historicamente na Doutrina Estrada.

O Brasil, por sua vez, enfrentou a mesma conjuntura global com uma estratégia de continuidade. Ainda que também tenha adotado reformas neoliberais, o país buscou equilibrá-las com uma política externa autônoma e regionalista. A criação do Mercosul, em 1991, tornou-se um marco desse projeto, funcionando como um escudo político e econômico frente à liberalização internacional. A diplomacia brasileira manteve-se fiel à ideia de que o desenvolvimento passava por uma integração regional sólida e por uma inserção multilateral, em vez de por uma dependência direta de uma potência hegemônica. Assim, enquanto o México se voltava para o Norte, o Brasil reafirmava sua vocação para o Sul.

Essa escolha teve consequências duradouras. Nas décadas seguintes, o México consolidou-se como uma economia aberta, altamente integrada ao comércio mundial, mas com influência política limitada na região. O Brasil, em contrapartida, conquistou prestígio diplomático e liderança em fóruns internacionais — ainda que tenha perdido espaço na economia global e sofrido o processo de reprimarização de suas exportações. Poderíamos considerar que um se globalizou, o outro se politizou. E essa assimetria moldou a forma como ambos se enxergam: mais como competidores do que como parceiros.

Buscamos demonstrar que, apesar de integrarem múltiplas organizações regionais e multilaterais — ONU, OEA, G20, CEPAL, CELAC —, Brasil e México raramente convergem em posições conjuntas. As experiências de cooperação, como os grupos de Contadora e do Rio nos anos 1980, ficaram no passado. Nas últimas décadas, o contraste se acentuou: o México apostou no regionalismo aberto, assinando vários tratados de livre comércio e aderindo à Aliança do Pacífico; o Brasil oscilou entre o regionalismo aberto e um modelo mais político, especialmente na primeira década do século XXI.

Os resultados dessas estratégias distintas se tornaram nítidos ao longo do século XXI. Ainda que o comércio bilateral tenha crescido expressivamente após a assinatura dos Acordos de Complementação Econômica (ACE-53 e 55), segue sendo pequeno diante do potencial de ambos os países. Entre 2003 e 2021, o comércio bilateral entre Brasil e México saltou de US$ 3,6 bilhões para US$ 11,6 bilhões, impulsionado por acordos como o ACE-55, voltado ao setor automotivo. No entanto, o peso relativo continua pequeno: o Brasil representa apenas 1,7% das importações mexicanas, e o México menos de 1% das exportações brasileiras. Mesmo nos períodos de crescimento, as relações comerciais permaneceram periféricas frente à centralidade dos Estados Unidos e da China.

A indústria automotiva seria um exemplo emblemático, porque mostra o abismo entre os modelos econômicos. O México destina cerca de 73% da sua produção automotiva ao mercado norte-americano, consolidando-se como plataforma exportadora. O Brasil, ao contrário, mantém sua indústria voltada ao mercado interno — o que explica a forte queda de produção entre 2013 e 2016, em meio à crise econômica e política. Portanto, a explicação está menos na concorrência e mais na falta de coordenação entre as duas estratégias desenvolvidas pelos países, pois enquanto o México é um exportador de manufaturas, especialmente no setor automotivo, o Brasil voltou-se para produtos primários como soja, minério e petróleo.

Essa diferença expressa o núcleo da divergência: o México transformou-se num país-manufatureiro integrado ao Norte; o Brasil, num exportador de commodities com ambições de liderança regional e que enfatiza a cooperação Sul-Sul. Longe de ser um obstáculo, essa diferença poderia ser uma oportunidade de complementaridade produtiva — mas a ausência de acordos mais amplos e de confiança política vem impedindo que ela se concretize.

Outro elemento atual que reforça a divergência é o fenômeno do nearshoring. A migração de empresas chinesas para o território mexicano, visando escapar das barreiras impostas pelos EUA e se beneficiar da proximidade geográfica, transformou o país em um novo polo industrial do hemisfério. Essa tendência fez crescer o investimento estrangeiro direto no país em 76% apenas entre 2020 e 2021. Enquanto o México se torna destino preferencial de empresas chinesas de eletrônicos e automóveis, o empresariado brasileiro teme a perda de competitividade e defende um tratado comercial mais profundo entre os dois países, algo que vá além do setor automotivo. Iniciativas como o Conselho Empresarial Brasil-México (Cebramex) e a Câmara Comercial México-Brasil (Camebra) vêm propondo novas medidas: ampliação de acordos comerciais, cooperação tecnológica, exportação de carnes e produtos industriais e até um acordo previdenciário para facilitar a circulação de trabalhadores entre os dois países.

As divergências políticas também continuam a pesar nas relações entre os dois países. O México não apoia a candidatura brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), e quando o governo mexicano presidiu a CELAC (Cmunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), o governo do Brasil (sob a presidência de Jair Bolsonaro) chegou a suspender sua participação no organismo. Esses episódios ilustram a persistente combinação de desconfiança e competição que impede uma aliança sólida entre as duas potências.

Os autores indicam que os distanciamentos econômicos estão relacionados também aos distanciamentos políticos entre os dois países. Desde o final do século XX houve uma relativa constância ideológica nos governos mexicanos que podem ser posicionados como de direita no espectro político e apoiadores de uma agenda neoliberal. No caso brasileiro, o único governo com posicionamento semelhante ao mexicano foi durante o governo Collor, os demais presidentes podem ser considerados mais como centro ou centro-direita e a partir de 2002, com a vitória de Lula da Silva, o espectro político do governo brasileiro voltou-se para a centro-esquerda (entre 2003-2015).

A partir de 2018 há uma forte inversão nesse cenário com a vitória de Jair Bolsonaro no Brasil que assumiu uma agenda neoliberal na economia, enquanto a vitória de Andrés Manuel López-Obrador no México em 2019 trouxe uma pauta mais à esquerda para o governo de seu país. Somente com a vitória de Lula da Silva em 2022, encontramos um momento de convergência política entre os dois países que poderia contribuir para a superação do distanciamento e facilitar uma maior aproximação.

No balanço final, o capítulo propõe uma leitura equilibrada: o México é hoje um “global trader”, com forte inserção econômica, mas menor autonomia política; o Brasil, um ator diplomático influente, mas com dificuldades para se reinserir nas cadeias produtivas globais. Suas estratégias — a abertura mexicana e o autonomismo brasileiro — não são apenas diferentes, são complementares. E é justamente essa complementaridade que poderia, se houvesse vontade política, servir de base para um novo eixo de liderança latino-americano.

Em nossa análise, convidamos o leitor a refletir sobre um paradoxo: Brasil e México são potências médias com trajetórias espelhadas. O México é hoje um ator central nas cadeias globais de valor, mas sua autonomia política é reduzida. O Brasil, por outro lado, mantém prestígio diplomático e presença ativa em fóruns multilaterais, mas luta para diversificar sua economia e aumentar sua competitividade internacional. Em ambos os casos, as estratégias nacionais parecem prisioneiras de suas próprias trajetórias, e romper com esse caminho exigiria uma nova “cojuntura crítica”, como aquela que os diferenciou nos anos 1990.

O debate desenvolvido neste capítulo não é apenas uma comparação entre dois países, mas uma reflexão sobre o destino da América Latina. Ao mostrar como a falta de articulação entre Brasil e México enfraquece a capacidade regional de se posicionar no mundo, apontamos um desafio coletivo: transformar a divergência em convergência, a competição em cooperação. Um projeto ambicioso, mas necessário, para que o continente possa construir sua própria voz em meio às disputas globais entre Estados Unidos e China. “Brasil y México: dos modelos para América Latina” é, portanto, uma análise voltada para compreender as tensões, as escolhas e as oportunidades que moldam o presente latino-americano — e talvez também o seu futuro.

Escrito por

Observatório de Regionalismo

O ODR (Observatório de Regionalismo) realiza entrevistas com autoridades em suas áreas de conhecimento e/ou atuação, lançando mão de diversas mídias à divulgação do material elaborado.