O papel do regionalismo para Estados bifrontes: os casos de México e Turquia

méxico e turquia

Para determinados países, a estratégia única de inserção regional não se adequa a sua realidade geográfica, histórica, econômica e até mesmo cultural, pois determinados Estados, chamados de bifronte (ou cusp states), encontram-se no limite do que são consideradas duas (ou mais) regiões ou establishments, constituindo uma dualidade intrínseca em sua política externa1. Nesse sentido, é possível identificar posturas e estratégias regionais diferentes, mas complementares. Entre as estratégias, destaca-se a tendência destes Estados bifrontes em valorizar discursos de regionalismo como forma de se proclamarem como parte de seus respectivos frontes.

A efeito de ilustração, analisam-se dois países que têm o bifrontismo impresso em sua essência: México e Turquia. De cara, para estes dois países, a geografia estabelece um parâmetro fundamental de inserção regional, na medida em que se encontram entre duas regiões política, econômica e culturalmente divergentes. No caso mexicano, ao se localizar justamente no afunilamento do continente americano – onde são separadas as duas maiores porções territoriais do continente, entre América do Norte e América do Sul – este país precisa lidar com as discrepantes realidades do norte e do sul. Não muito diferente, o território turco encontra-se entre o mar Mediterrâneo e Negro, conectando também duas regiões contrastantes desde aspectos políticos até culturais: Oriente Médio e Europa.

A partir disso, México e Turquia – e os demais países bifrontes – constroem sua estratégia de inserção regional, a qual lhes oferece oportunidades, mas também riscos. Dentre as oportunidades destaca-se a facilidade em se desenvolver seu papel de interlocutor e mediador entre as duas regiões. Assim, tanto em processos de cooperação como conflitivos, a existência de um país que se defina como parte de ambas as regiões pode estimular um diálogo inter-regional mais efetivo. Já no que diz respeito aos riscos, os países birregionais, em função de sua própria dualidade, podem não garantir a confiança de uma ou de ambas as partes como um mediador regional no caso de tal relação birregional não estar balanceada, pendendo para um dos lados.

Frente a isso, o regionalismo se torna um elemento chave para entender até que ponto sua estratégia bifronte encontra-se harmoniosa ou não. Assim, por meio da análise da inserção regional de México e Turquia da década de 1990 até a atualidade é possível verificar essa dualidade de oportunidades e riscos e como o regionalismo foi importante na definição de suas estratégias.

No caso mexicano, a balança de sua relação com a América do Norte e a América Latina sofreu um agudo golpe quando em 1993 assinou o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), o qual institucionalizou sua relação e dependência político-econômica aos vizinhos do norte. A partir de então, o México passou a fazer parte da cadeia industrial e comercial dos Estados Unidos, chegando a uma dependência de 91% das exportações e 75% das importações no ano de 20002.

Frente a isso, sua relação com a América Latina se deteriorou, principalmente, no campo político-diplomático, o qual historicamente havia sido ativo nas décadas de 1960, 1970 e 1980, por seu papel na mediação de conflitos (como durante sangrentas guerras civis na América Central) e na defesa da não intervenção estrangeira (como em sua relação com a Cuba revolucionária). Destaca-se nesse processo de deterioração da relação México-América Latina o governo de Vicente Fox (2000-2006), o qual enveredou profundos debates com os líderes latino-americanos da época  – com destaque ao venezuelano Hugo Chávez e ao argentino Néstor Kirchner – dada a sua intensa promoção da iniciativa americana da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Paralelamente, na medida em que o México promovia o regionalismo de seu fronte norte, na América do Sul desenvolveu-se um regionalismo pós-neoliberal, o qual valorizava aspectos infraestruturais, políticos e sociais, resultando na criação, por exemplo, da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA) e da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL).

No entanto, percebendo sua perda de espaço na região, o México, a partir de 2010, passou a promover novamente a ideia de regionalismo latino-americano em contraponto ao regionalismo sul-americano, lançando a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), a qual seguia na linha política e social das iniciativas geradas no período. Além disso, a partir de 2011, juntou-se a Colômbia, Chile e Peru (com governos ideologicamente afins) na criação de um novo bloco regional, a Aliança do Pacífico, o qual retomou os parâmetros do regionalismo aberto. No caso mexicano fica evidente, portanto, como a falta de balanceamento no relacionamento de um Estado bifronte fragiliza sua inserção regional, tendo sido o regionalismo a estratégia central nesse processo, ao desequilibrar (por sua adesão ao NAFTA) e ao reequilibrar (com sua retomada regional com a CELAC e a Aliança do Pacífico) esta relação dual.

Similar ao caso mexicano, a Turquia na década de 1990 apostou em sua inserção comercial à União Europeia ao firmar em 1995 um acordo de união aduaneira com Bruxelas. Além disso, o Estado turco teve sua candidatura ao bloco europeu reconhecida em 1997, apontando um interesse para além do comercial, uma pretensão política. No entanto, diferentemente do México, a Turquia interpretou que sua aproximação política e comercial à União Europeia não deveria refletir no deterioramento de sua relação com o Oriente Médio. Dessa forma, a Turquia passou a ver seu poder político, econômico e cultural no Oriente Médio como uma estratégia de manter sua própria relevância frente ao fronte ocidental, garantindo-lhe maior poder de barganha na negociação para sua adesão como membro pleno no bloco europeu 3.

Nesse sentido, investiu na promoção de diversos acordos de livre comércio, os quais resultaram em um aumento das exportações turcas a países da Ásia e África (em especial, aos países árabes e islâmicos)  de 19,5% em 2002 para 37,9% em 2016 4. Além disso, no âmbito político impulsionou a política diplomática nomeada de “zero problemas com vizinhos”. Inclusive, desenvolveu um importante papel de mediador de conflitos, como entre Israel e Síria, Armênia e Azerbaijão e o episódio mais proeminente da parceria com o Brasil em uma negociação com o Irã durante a crise nuclear deste último (2010). Nesse sentido, o governo turco passou a promover o país como o centro das duas regiões (Europa e Oriente Médio) e não como periferia delas, rejeitando a ideia de ponte, que simplesmente conecta para uma concepção mais ativa da Turquia.

No entanto, as crises experienciadas em ambos seus frontes tornaram a balança bifronte turca cada vez mais instável. Primeiro, a crise econômica na União Europeia a partir de 2008 elevou discursos xenófobos, dificultando as negociações para a adesão plena da Turquia. Já no outro fronte, a militarização do Oriente Médio a partir da Primavera Árabe, desestabilizou a região, com destaque ao conflito na Síria e a emergência do Estado Islâmico. Frente a este cenário, a balança regional turca começou a pender às suas alianças ocidentais. Como afirma Lesser (2011), seu avanço na região por meio de uma estratégia de soft power foi abalada com a ascensão do aspecto hard no Oriente Médio. Exemplo disso, foi sua reaproximação com seus parceiros securitários tradicionais, vide a instalação de radares e mísseis da OTAN na Turquia a partir de 2011 3.

Vista a experiência bifronte de México e Turquia da década de 1990 à atualidade, observa-se como o regionalismo foi central, tanto para impulsionar a postura bifronte (como a Turquia antes da Primavera Árabe e o México a partir da criação da CELAC) quanto para abalar o equilíbrio de seu bifrontismo (como na adesão do México ao NAFTA e sua promoção à ALCA e quando a Turquia já não conseguiu atuar como mediador dos conflitos no Oriente Médio, realiando-se a OTAN). O regionalismo, portanto, deve ser entendido como peça fundamental dentro da estratégia geral dos Estados bifrontes, na medida em que as iniciativas regionais devem primar pelo equilíbrio e harmonia de seus frontes.

Além disso, verifica-se a fragilidade desses Estados bifrontes em manter a médio prazo o equilíbrio de seus frontes e suas respectivas ferramentas de regionalismo frente aos diferentes contextos regionais e mundiais. Assim, Estados bifrontes são como malabaristas que buscam manter dois pinos rodando no ar em meio a um campo aberto, onde brisas ou fortes ventos podem direcionar os pinos mais para um lado que para outro. Nesse caso, destaca-se novamente a importância do regionalismo, na medida em que as iniciativas regionais institucionalmente consistentes  podem garantir maior estabilidade à sua estratégia bifronte frente a mudanças conjunturais.

Enfim, o sucesso dos Estados bifrontes está intimamente ligado à margem de manobra regional e internacional existente, assim como a sua habilidade em fomentar um regionalismo equilibrado, harmonioso e consistente.

 

1 HERZOG, Mark; ROBINS, Philip (ed.). The Role, Position and Agency of Cusp States in International Relations. Nova Iorque: Routeledge, 2014. Não paginada.

2 INEGI. Banco de información Económica. 2019. Disponível em: <https://www.inegi.org.mx/sistemas/bie/>. Acesso em: 27 fev. 2019.

3 HERZOG, Mark. From cusp to hub? How Turkey tried to instrumentalize its cuspness as an aspiring multi-regional middle power. HERZOG, Mark; ROBINS, Philip (ed.). The Role, Position and Agency of Cusp States in International Relations. Nova Iorque: Routeledge, 2014.

4 OEC. Turkey – Tree Map: Export Destinations. 2018. Disponível em: <https://atlas.media.mit.edu/pt/>;. Acesso em: 22 mai. 2018.

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