
A Rota de Integração Latino-Americana (RILA): entre a integração regional e o neoextrativismo
Paulo Cesar dos Santos Martins
Em 2025, defendi a tese de doutorado intitulada A Rota de Integração Latino-Americana (RILA): infraestrutura, integração regional e neoextrativismo na América do Sul, no Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP), sob a orientação da Profa. Dra. Regiane Nitsch Bressan. A pesquisa analisou um dos mais relevantes projetos de integração física em desenvolvimento na América do Sul, buscando compreender de que maneira essa iniciativa influencia os processos de integração regional, a reorganização dos territórios e as dinâmicas econômicas, sociais, políticas e ambientais que caracterizam a região.
O estudo evidencia que a RILA transcende sua dimensão logística, configurando-se como um elemento estratégico capaz de redefinir fluxos, ampliar a conectividade entre os países sul-americanos e, ao mesmo tempo, intensificar debates sobre desenvolvimento, governança territorial e os impactos do modelo neoextrativista. Conhecida também como Corredor Bioceânico, a Rota de Integração Latino-Americana (RILA) conecta Brasil, Paraguai, Argentina e Chile por meio de uma rede de rodovias e obras de infraestrutura que aproxima o Centro-Oeste brasileiro dos portos do Oceano Pacífico. A expectativa é que essa conexão reduza distâncias, diminua custos logísticos e fortaleça o comércio entre a América do Sul e os mercados da Ásia, especialmente a China.
Figura 1 – Mapa do trajeto da rota de integração (RILA): Imagem destacada. Fonte: Elaboração própria, extraída de Martins (2025, p. 70).
Embora frequentemente apresentada como um projeto destinado a fortalecer a integração regional e ampliar a competitividade econômica, a RILA não pode ser compreendida apenas como uma obra de infraestrutura voltada ao transporte de mercadorias. Trata-se de um empreendimento de natureza geopolítica, econômica e territorial que envolve governos nacionais, organismos internacionais, bancos de desenvolvimento, empresas privadas e diferentes grupos sociais diretamente impactados pelas transformações promovidas ao longo do corredor (MARTINS, 2025).
A tese parte do entendimento de que grandes projetos de infraestrutura exercem papel estratégico na reorganização dos territórios e na redefinição das relações econômicas internacionais. Nesse contexto, o trajeto de integração física da rota é analisado como resultado de um processo histórico de aproximação entre os países sul-americanos, intensificado pelas iniciativas de integração física, especialmente pela IIRSA e, posteriormente, pelo COSIPLAN, articulando políticas nacionais, interesses transnacionais e novas dinâmicas territoriais (GUDYNAS, 2009; LIMA, 2021; MARTINS, 2025).
O principal objetivo da pesquisa foi compreender de que maneira a RILA contribui para a integração regional sul-americana e quais são seus efeitos econômicos, sociais, ambientais e territoriais. A análise também buscou identificar os interesses políticos e econômicos que sustentam o projeto, os atores envolvidos em sua implementação e os impactos produzidos sobre os territórios e as populações atravessadas pelo corredor (MARTINS, 2025).
Os resultados indicam que, embora a iniciativa represente um importante avanço para a integração física da América do Sul, ela também fortalece um modelo de desenvolvimento baseado na exportação de commodities, característica central do neoextrativismo latino-americano. O discurso institucional enfatiza integração, desenvolvimento e competitividade; entretanto, a pesquisa evidencia que uma de suas principais funções consiste em ampliar a eficiência logística para o escoamento da produção agropecuária e mineral destinada aos mercados internacionais (GUDYNAS, 2009, 2012a, 2012b; SVAMPA, 2017, 2019; MARTINS, 2025).
Essa interpretação dialoga com os estudos de Eduardo Gudynas e Maristella Svampa, que analisam o neoextrativismo como uma nova fase do desenvolvimento latino-americano. Para Gudynas (2012a; 2012b), o neoextrativismo caracteriza-se por uma atuação mais ativa do Estado no financiamento e planejamento de grandes empreendimentos voltados à exploração de recursos naturais, mantendo a inserção subordinada da América Latina na economia internacional. Já Svampa (2017; 2019) destaca que esse modelo amplia a fronteira de exploração por meio do agronegócio, da mineração, das grandes obras de infraestrutura, das barragens e dos corredores logísticos destinados ao escoamento de commodities. Nesse cenário, rodovias, ferrovias, hidrovias, pontes e portos deixam de exercer apenas funções de transporte e passam a integrar a infraestrutura necessária à reprodução do modelo neoextrativista.
Para desenvolver essa análise, a pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, fundamentada em ampla revisão bibliográfica, análise documental, levantamento de dados oficiais, elaboração de mapas temáticos por meio de Sistemas de Informação Geográfica (SIG/ArcGIS), consultas a documentos governamentais e organismos internacionais, além da realização de entrevistas semiestruturadas e trabalho de campo (MARTINS, 2025).
As atividades de campo concentraram-se em Porto Murtinho (MS), município considerado um dos principais pontos estratégicos do corredor de integração em território brasileiro. Foram entrevistados pesquisadores, professores universitários, representantes do setor privado, agentes públicos, lideranças políticas e moradores locais, buscando compreender as percepções sobre os impactos da implantação da rota e as expectativas em relação ao desenvolvimento regional (MARTINS, 2025).
Os resultados da pesquisa mostram que os benefícios econômicos da infraestrutura tendem a ser distribuídos de forma desigual. Enquanto grandes empresas exportadoras figuram entre as principais beneficiárias da redução dos custos logísticos, comunidades locais podem enfrentar desafios relacionados à expansão da fronteira agrícola, à especulação imobiliária, ao desmatamento, à pressão sobre áreas ambientalmente sensíveis e ao aprofundamento das desigualdades territoriais (SVAMPA, 2017, 2019; URTEAGA-CROVETTO; CÁRDENAS, 2021; MARTINS, 2025).
Essas constatações reforçam a necessidade de que grandes projetos de integração regional sejam acompanhados por planejamento territorial, participação social e políticas públicas voltadas à proteção ambiental e à justiça territorial. A integração física, por si só, não garante desenvolvimento equilibrado. Seus resultados dependem da forma como benefícios e custos são distribuídos entre os diferentes atores envolvidos (LIMA, 2021; MARTINS, 2025).
A tese conclui que a Rota de Integração Latino-Americana representa um importante instrumento para ampliar a conectividade entre os países sul-americanos e fortalecer o comércio internacional. Contudo, também evidencia as contradições do atual modelo de desenvolvimento baseado no neoextrativismo. Mais do que reduzir distâncias e facilitar o transporte de mercadorias, o desafio colocado pela rota consiste em construir um processo de integração regional capaz de conciliar crescimento econômico, preservação ambiental, participação social e justiça territorial, garantindo que seus benefícios sejam compartilhados de maneira mais equilibrada entre os países e suas populações.
Embora a tese tenha sido defendida em 2025, a Rota de Integração Latino-Americana permanece em processo de consolidação. Diversas obras estratégicas ainda estão em andamento, com destaque para a Ponte Internacional sobre o rio Paraguai, ligando Porto Murtinho (Brasil) a Carmelo Peralta (Paraguai). Em julho de 2026, por exemplo, a obra alcançou um importante marco com a união das estruturas dos dois países, entrando na fase final de execução.
Entretanto, a infraestrutura ainda depende da conclusão dos acabamentos, da entrega dos acessos rodoviários e da implementação de outras intervenções logísticas previstas nos quatro países envolvidos para que o corredor opere plenamente (G1 MATO GROSSO DO SUL, 2026). Esses avanços reforçam a atualidade da pesquisa e demonstram que a RILA deve ser compreendida como um processo dinâmico de integração regional, cujos impactos econômicos, territoriais, sociais e ambientais continuarão a se manifestar nos próximos anos.
REFERÊNCIAS
ACOSTA, Alberto; BRAND, Ulrich. Pós-extrativismo e decrescimento: saídas do labirinto capitalista. São Paulo: Elefante, 2018.
G1 MATO GROSSO DO SUL. Comemoração celebra fase de finalização da ponte que ligará Brasil e Paraguai pela Rota Bioceânica; vídeo. 17 jul. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2026/07/17/comemoracao-celebra-fase-de-finalizacao-da-ponte-que-ligara-brasil-e-paraguai-pela-rota-bioceanica-video.ghtml. Acesso em: 29 jul. 2026.
GUDYNAS, Eduardo. Diez tesis urgentes sobre el nuevo extractivismo: contextos y demandas bajo el progresismo sudamericano. In: CAAP; CLAES. Extractivismo, política y sociedad. Quito: CAAP/CLAES, 2009.
GUDYNAS, Eduardo. Estado compensador y nuevos extractivismos: las ambivalencias del progresismo sudamericano. Nueva Sociedad, n. 237, p. 128-146, 2012.
GUDYNAS, Eduardo. El nuevo extractivismo progresista en América del Sur. Revista del Observatorio Social de América Latina, 2012.
LIMA, Ivaldo Gonçalves de. Integração regional, IIRSA e território na América do Sul. 2021.
MARTINS, Paulo Cesar dos Santos. Integração física sul-americana: um estudo sobre a Rota de Integração Latino-Americana (RILA). 2025. Tese (Doutorado em Relações Internacionais) – Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP), São Paulo, 2025. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/3a52b36d-7bd4-446c-98f1-e719d6cae1dc. Acesso em: 29 jul. 2026.
SVAMPA, Maristella. Del cambio de época al fin de ciclo: gobiernos progresistas, extractivismo y movimientos sociales en América Latina. Buenos Aires: Edhasa, 2017.
SVAMPA, Maristella. Las fronteras del neoextractivismo en América Latina. Guadalajara: CALAS, 2019.
URTEAGA-CROVETTO, Patricia; CÁRDENAS, Catalina. Global justice and socio-environmental conflicts in extractive industries. 2021.
