Entre a Razão e a Emoção: Reflexos da Campanha Trump no relacionamento México-EUA

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O apelo às emoções em campanhas eleitorais não é algo novo na política. Angariar o apoio da população, aproveitando-se de um estado presente de dificuldades econômicas, é um truque de retórica é um velho conhecido da História. Apelidados de populistas, esses governos buscam o apoio das massas votantes, que detém pouco poder econômico e voz, para um projeto de país engrandecedor, prometendo o desenvolvimento a partir das propostas e esforços pessoais advindos de um líder. Entretanto, o que parecia mazela do subdesenvolvimento e desesperança dos menos afortunados no cenário internacional, agora aparece no centro do Centro da política internacional: Donald Trump surge na campanha das prévias Republicanas com 49% das intenções de voto.

O fenômeno Trump não nos traz muitos elementos novos quando o vemos pelo espectro de políticas populistas. Com o projeto Make America Great Again, Trump utiliza-se de estratégias antigas de políticos que buscam o apoio emocional: o discurso de atual declínio e recuperação de uma glória histórica perdida por uma atual liderança incompetente; a capacidade pessoal dele mesmo de resolver as questões e dilemas estadunidenses, baseando-se em seu suposto histórico de empresário de sucesso. Nesse sentido, Trump busca dar voz a aqueles que, em uma ótica de emoções propostas por Dominique Moisi (2010), encontram-se no espectro da “humilhação”, perda de perspectiva no futuro e saudosismo de um passado glorioso.

Mas quem compõe seu eleitorado? Como aponta o estudo realizado pelo Washington Post, Trump angaria os votos de homens brancos que possuem baixa escolaridade e que ganham menos ao ano. É justamente a parcela da população que em 23 anos perdeu cerca de 8% de empregabilidade, que enxerga, devido a tais condições, a falta do alento do governo em sua representação. Além disso, a capacidade de diálogo entre Trump e os menos escolarizados também surge nos apontamentos da pesquisa. O candidato, que manteve durante anos presença frequente em programas na televisão, simboliza para essas pessoas grande capacidade de decisão e uma trajetória de sucesso. Amplia-se o apoio justamente quando, para essa camada da população, emprega-se o discurso de que a gestão Trump criará mais empregos, trará mais segurança e lidará com as ameaças de segurança interna. E, nesses pontos, é que o candidato mais estimula a agressividade na emoção.

O alvo para os ataques discursivos do pré-candidato quando se fala em segurança e política de segurança são diretamente os vizinhos mexicanos. Acusados por Trump de aumentar a violência, buscar empregos nas terras estadunidenses e causadores de problemas sociais, os mexicanos ainda teriam de arcar com a construção de um muro de 3000 quilômetros entre os dois países para impedir a entrada ilegal de migrantes nos Estados Unidos, segundo proposta do candidato.

Tais questões geraram atrito com o atual presidente mexicano, Peña Nieto, e o ex-presidente, Vicente Fox. Conhecidos por uma plataforma de política exterior positiva com os Estados Unidos, em termos de comércio e fortalecimento do Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (TLCAN), esses líderes condenaram publicamente a postura de Donald Trump, tendo Nieto dito que Trump não conhece o povo mexicano e Fox chamando-o de “louco” e comparando-o a Hitler.

 É, portanto, por atacar um importante parceiro estadunidense que Trump peca ao apelar demasiadamente para as emoções. O México é o terceiro maior parceiro comercial dos Estados Unidos, destino de produção da grande parte das indústrias do país epeça fundamental para a estratégia de contenção da China em termos de produção global. Enquanto uma estratégia racional buscaria uma maior aproximação, o distanciamento causado por esses comentários é o que dificulta o poder do candidato a angariar interesses de pessoas com maior poder econômico.

A relação Trump-México é um exemplo do que o projeto dele representa e para quem se destina. Trump promete um Estados Unidos mais isolado ao comércio internacional, a geração de empregos dentro do país e não fora, em privilégio do povo estadunidense, o que é coerente em seu discurso de afastamento. Porém, é nesse diálogo que ele se afasta dos grupos de capitais globalizados, importantes para financiar uma campanha geral contra um democrata. Há de se notar que o grande poder econômico se encontra justamente nos atores que investem no México, na Ásia, e que buscam ampliar a rede global de acordos comerciais com o Tratado Transpacífico (TTP). Pondo-se contra esse acordo, Trump dirige-se contra os interesses daqueles que fazem diferença no momento de votos de delegados, tendo em vista que estes têm maior poder de decisão em eleições que o sufrágio popular.

Por mais que dialogar com setores baixos da população seja necessário para uma vitoriosa campanha política, sem o apoio dos grandes, pouco se pode avançar. Portanto, o discurso de Trump sobre o México e a economia global apenas o distancia mais do establishment e o aproxima mais de camadas que se sentem subrepresentadas. Para conseguir vitória, Donald Trump necessita suavizar seu discurso e, inicialmente, aproximar-se dos mexicanos. É importante notar que, na economia mexicana, 50% dos investimentos estrangeiros diretos são dos EUA, o que, pelo baixo custo de mão-de-obra, aumenta a competitividade das empresas estadunidenses. Essa aproximação Trump-México trabalharia mais com a razão do que o simples apelo ao seu público, orquestrando de maneira mais efetiva sua possível vitória nas prévias.


Para mais informação (Referência):

BANCO DE MÉXICO. La Balanza de Pagos en 2015. On-line, 2016.

FONTAINE, R. KAPLAN, R. D. How Populism Will Change Foreign Policy: The Bernie and Trump Effects. Foreign Affairs (on-line), 2016.

INFOBAE. Enrique Peña Nieto sobre Donald Trump: “Lastima la relación de México con los EEUU”. 

O’NEIL, S. K. Six Markets to watch: Mexico – Viva las reformas!. Foreign Affairs (on-line), 2013.

RT. Ex-Mexican President Vicente Fox challenges Trump to debate at ‘no charge.

RT. TPP trade deal ‘a disaster,’ other countries will ‘dupe’ US – Donald Trump.

THE WASHINGTON POST. Who really supports Donald Trump, Ted Cruz, Ben Carson,Marco Rubio and Jeb Bush — in 5 charts. On-line, 2015.

Foto: disponível no acervo pixabay

Impresso:
Moisi, D. The geopolitics of emotion: How cultures of fear, humiliation, and hope are reshaping the world. Anchor, 2010.

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