Venezuela: relações comerciais e políticas

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Imagem: Bandeira venezuelana em uma representação diplomática. Foto de André Leite Araujo (2018)

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Diante dos múltiplos acontecimentos envolvendo a Venezuela no período contemporâneo, este artigo busca discutir a interação entre os fluxos de comércio exterior e os acontecimentos políticos, verificando se há correlação entre as duas esferas. Em outros termos, se a aproximação ou o distanciamento das relações políticas com Caracas possuem impacto direto nas relações econômicas.

Os gráficos a seguir, com valores em dólares, foram produzidos com dados obtidos no The Observatory of Economic Complexity (2019)[1]. O recorte temporal foi de 2013 a 2017, tendo como marco inicial a eleição do presidente venezuelano Nicolás Maduro, sucedendo Hugo Chávez, falecido no mesmo ano. Considerando que os dados referentes a 2018 ainda não foram disponibilizados, o último ponto na série apresentada é 2017. Este ano é particularmente relevante para a interação entre Caracas e as organizações regionais, porque presenciou três eventos: o pedido de sua retirada da Organização dos Estados Americanos (OEA); a segunda suspensão do Mercado Comum do Sul (Mercosul); e a fundação do Grupo de Lima. Especialmente após a eleição da Assembleia Nacional Constituinte, foram medidas que simbolizaram o deterioramento das relações com os países de seu entorno, tanto a nível bilateral quanto a nível multilateral, na medida em que as instituições de governança não alcançaram articular um diálogo entre as diversas partes políticas envolvidas. Ademais, reforçaram as estratégias de isolamento internacional do governo Maduro.

Isso posto, outro recorte colocado foi a seleção de 14 parceiros comerciais para serem analisados. Buscou-se considerar Estados que vem tendo proeminência política na questão venezuelana nos últimos anos. Assim, além de membros da região latino-americana, também se observa a relação com países extrarregionais, tendo em conta também a influência de potências de fora da América Latina na Venezuela.

Inicialmente, convém fazer um panorama dos fluxos de exportações e importações da Venezuela com os Estados selecionados. No período analisado, há um notável deterioramento dos valores comerciais, o que representa uma diminuição do papel econômico venezuelano na sociedade internacional e um consequente agravamento de sua situação interna, tendo em vista que é um país sem industrialização expressiva e historicamente dependente da exportação de petróleo e da importação de uma miríade de produtos. Nesse sentido, apesar do aprofundamento do isolamento político nos últimos 3 anos, a perda de fôlego comercial vem ocorrendo durante todo o período de Maduro.

Assim sendo, os números negativos se acentuam principalmente nas importações, pois de 2013 a 2017, caíram em todos os 14 casos. O cenário com menos desvalorização foi com o México, pois diminuiu 47,6% em 4 anos. Em contrapartida, as compras da Bolívia caíram 99,6%. Observando os números absolutos, Estados Unidos é a maior origem das compras venezuelanas, seguidos pela China. Em relação aos blocos regionais, Aliança do Pacífico e Mercosul, é importante notar que há uma inversão da posição que ocupam para a Venezuela, pois os membros da Aliança do Pacífico ultrapassam os do Mercosul em valores de importações para a Venezuela.

Importações para a Venezuela entre 2013 e 2017 (valores em dólares)

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Fonte: Elaboração própria, com base em OEC (2019)

Já em relação às exportações, apesar de haver quedas abruptas, como a diminuição de 98,6% nas vendas para a Bolívia, também há aumentos, como o de 499,1% nas comercializações para o Paraguai em 4 anos. Considerando os valores absolutos, os Estados Unidos permanecem como o principal destino das exportações venezuelanas, seguidos pela China. Além disso, assim como nas importações, em princípio, o Mercosul ocupava maior espaço na pauta de exportações da Venezuela do que a Aliança do Pacífico. Entretanto, na medida em que os mercados mercosulinos perdem espaço e diminuem suas compras da Venezuela, a Aliança do Pacífico passa a ser, em números absolutos, mais importante.

Exportações da Venezuela entre 2013 e 2017 (valores em dólares)

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Fonte: Elaboração própria, com base em OEC (2019)

Observando o Mercosul, representado nas primeiras figuras, nota-se comportamentos difusos. Apesar das suspensões aplicadas à Caracas em 2016 e 2017, as exportações recebem um incremento para Bolívia, Paraguai e Uruguai. Logo, o esfacelamento das relações no nível institucional não corresponde aos dados de exportações da Venezuela para os vizinhos. Notavelmente, o caso paraguaio chama atenção, pois foi um dos principais críticos à entrada da Venezuela ao Mercosul e vem marcando forte oposição ao governo caraquenho – o que não impediu o desenvolvimento positivo dessa troca comercial. Contudo, considerando os demais países, nota-se um acentuado declínio a partir de 2013, apontando que as crises econômica e política, tanto na Venezuela quanto nos demais países, afetou o volume do intercâmbio.

Dessa forma, convém enfatizar que a Bolívia presidida por Evo Morales, um dos principais apoiadores do governo Maduro até a atualidade, diminui abruptamente seu comércio com a Venezuela já em 2014, mantendo níveis baixos até 2017. Portanto, apesar da proximidade político-ideológica entre os dois governos, a Bolívia redirecionou sua agenda comercial para além da Venezuela. De igual maneira, a Argentina, com Cristina Kirchner, apresentava maior convergência com Caracas, mas teve as importações e exportações diminuídas ainda sob seu governo, sendo que as exportações foram recuperadas parcialmente sob a presidência de Mauricio Macri, crítico de Maduro e um dos defensores das suspensões no âmbito do Mercosul.

No tocante ao caso brasileiro, as importações do Brasil para a Venezuela vem se reduzindo permanentemente, principalmente a partir de 2015. Também as exportações apresentaram queda, mas ficaram razoavelmente estáveis entre 2016 e 2017. Desse modo, o impacto comercial se inicia no segundo governo de Dilma Rousseff, antes do período de Michel Temer. E a diminuição da importância venezuelana nas relações comerciais brasileiras é notável no contexto de confronto com Caracas e das suspensões do Mercosul – sendo a última celebrada em São Paulo. Isso porque, no contexto de adesão da Venezuela ao bloco, era um dos principais parceiros comerciais do Brasil, o que impulsionou o apoio à ampliação do Mercosul.

Fluxos de comércio exterior entre o Mercosul e a Venezuela entre 2013 e 2017 (valores em dólares)

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Fonte: Elaboração própria, com base em OEC (2019)

Sobre a Aliança do Pacífico, conforme apontado anteriormente, passam a ocupar uma fatia maior no comércio venezuelano do que o Mercosul. Entretanto, os 4 membros mantiveram distância diplomática dos governos chavistas e a própria fundação da Aliança do Pacífico é a aposta por um modelo de regionalismo que diferisse dos esquemas de integração latino-americanos na última década. Ademais, a participação no Grupo de Lima – tendo o Peru, obviamente, como um dos articuladores – é uma resposta de oposição ao governo da Venezuela, inclusive com as medidas de não reconhecer nem a eleição da Constituinte, nem a reeleição presidencial, e apoiar a tentativa de governo paralelo de Juan Guaidó.

Isso posto, ressalta-se os elevados valores no intercâmbio comercial com a Colômbia, que apresenta crescentes tensões com o Palácio de Miraflores tanto no governo de Chávez quanto no de Maduro. Além disso, de 2016 para 2017, o México tem o sinal de sua curva oposto aos demais, Chile, Colômbia e Peru – como, por exemplo, o aumento das exportações venezuelanas no período mais recente. Logo, não há um comportamento homogêneo para todos os da Aliança do Pacífico.

Todavia, a aproximação do presidente mexicano Andrés Obrador a Caracas, a partir de 2018, e o rompimento das relações diplomáticas com Bogotá, em 2019, podem eventualmente afetar os indicadores observados aqui.

Fluxos de comércio exterior entre a Aliança do Pacífico e a Venezuela entre 2013 e 2017 (valores em dólares)

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Fonte: Elaboração própria, com base em OEC (2019)

A respeito das relações com países extrarregionais, nota-se os grandes números nas relações comerciais com Estados Unidos e China, com volume maior, tanto em exportação quanto em importação, do que com qualquer outro parceiro latino-americano. Apesar dos crescentes conflitos entre Washington e Caracas, principalmente sob a administração de Donald Trump, e de haver tido quedas, o comércio exterior entre Venezuela e Estados Unidos se manteve consistente. Considerando o rompimento das relações diplomáticas, ocorrido em 2019, o impacto comercial precisará ser analisado – o que servirá para testar a hipótese do presente trabalho de que os discursos políticos e as práticas econômicas nem sempre convergem, apesar de estarem envolvidos em estratégias políticas.

Padrão semelhante ao dos Estados Unidos é seguido nas trocas comerciais com a China, outra potência que exerce considerável influência na questão venezuelana, inclusive no conflito entre Maduro e Guaidó. Por outro lado, apesar da importância de Moscou no xadrez político, o comércio russo-venezuelano não apresenta valores no mesmo nível que China e Estados Unidos. Apesar de um aumento em 2017, as exportações para a Rússia são consideravelmente pequenas – semelhante às enviadas para o Paraguai. Entretanto, os indicadores das importações carregam números mais expressivos – similares aos do comércio com o Peru.

Face ao apresentado, o forte peso de Pequim e de Washington apresenta correlação entre as dimensões econômica e política, ainda que tenha diferenças no conteúdo diplomático. A esse respeito, ao passo que o governo estadunidense é contrário ao presidente Maduro (inclusive reconhecendo o deputado Guaidó como presidente provisório da Venezuela), o governo chinês o apoia. Contudo, tendo em vista as diferenças com a Rússia, percebe-se que o envolvimento político na região não necessariamente acompanha a presença econômica, o que estimula a incluir também a lógica militar nessa hipótese.

Fluxos de comércio exterior entre Estados de fora da América Latina e a Venezuela entre 2013 e 2017 (valores em dólares)

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Fonte: Elaboração própria, com base em OEC (2019)

Diante do exposto, dadas as diferenças nas variáveis políticas e econômicas, pode-se fazer duas considerações. Primeiramente, que as ações governamentais não necessariamente acompanham a atividade privada. Este aspecto merece uma análise mais aprofundada em pesquisa futura, mas é uma hipótese explicativa de como atores econômicos privados podem interferir nas relações internacionais, agindo no sistema de forma distinta àquela praticada pelos órgãos públicos do Estado. Por outro lado, a convergência entre os dois grupos também é passível de ocorrência, com possível iniciativa de ambos os lados. Tanto na possibilidade de divergência quanto de convergência, a negociação política – no sentido de disputa por poder –  é parte do fenômeno.

Em segundo lugar, tendo em vista que a atividade econômica não é puramente pragmática ou politicamente desinterssada, é possível considerar que o discurso político-diplomático e as práticas de comércio exterior podem ser partes da mesma estratégia de inserção internacional. Em outros termos, ainda que em alguns casos sigam direções aparentemente opostas, podem ambas responder a interesses diversos, mas coordenados dos grupos envolvidos no direcionamento da política externa de um Estado.

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Notas

[1] Apesar da adesão da Bolívia ao Mercosul não estar concluída, foi considerada nesta categoria.

Referência

OEC. The Observatory of Economic Complexity. Disponível em: <https://atlas.media.mit.edu/en/>. Acesso em: 13 mar. 2019.

 

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