ODR Entrevista Marcela Franzoni: o México e a Integração Regional

ODR entrevista - marcela franzoniMarcela Franzoni é mestranda do Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP), pesquisadora do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI), do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI) e graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Retornou recentemente de estágio de pesquisa realizado na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), Cidade do México. Pesquisa a política externa mexicana e as suas relações com os Estados Unidos e a América Latina.

1) Você retornou do México recentemente. Depois de ter passado alguns meses morando na Cidade do México e estudando na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), gostaríamos de saber suas impressões de como o país está lidando com a presidência Donald Trump. Tendo em vista que o México faz parte do Tratado Norte-americano de Livre-comércio (NAFTA) junto aos Estados Unidos (EUA) e Canadá, o que torna sua economia extremamente dependente destes países, sobretudo da economia estadunidense. Como os diversos setores da sociedade mexicana têm refletido sobre esta dependência, sobretudo em tempos de renegociação do NAFTA?

Essa foi uma questão que me surpreendeu estando no país. Saí do México com a impressão que a dependência é um debate muito “isolado” do resto da sociedade, desenvolvido principalmente na academia. Na vida cotidiana dos cidadãos, a dependência do México em relação aos Estados Unidos não é uma preocupação. E isso é legítimo. As pessoas sentem-se e manifestam-se de acordo com o que afeta a sua realidade. Por exemplo, para o público em geral, não é visto como uma grande preocupação que 81% das exportações do México tem como destino os EUA, mas sim se as pessoas estão empregadas e se os produtos que o México importa chegam a um preço justo no mercado nacional. O que eu quero dizer é que não há um grande debate na sociedade mexicana nestes termos, da “dependência” e da “autonomia”, apenas em círculos restritos. O que houve nos últimos meses foram manifestações sociais contra a figura de Donald Trump. Falava-se muito de comprar produtos “hecho en México” e boicotar viagens aos Estados Unidos. Contudo, isso não está relacionado diretamente à dependência, e sim ao tom notoriamente anti-mexicano empregado pelo presidente eleito. A sociedade mexicana cobrava de Enrique Peña Nieto uma postura mais firme frente ao vizinho, de defesa do país e do seu povo, mas isso não necessariamente queria dizer não renegociar o NAFTA. Muito mais do que um debate sobre dependência, é um debate de como as duas sociedades estão conectadas, de mostrar para os Estados Unidos o valor dos mexicanos. Penso que o governo mexicano não tem mostrado uma estratégia consolidada para administrar as relações com os EUA, respondendo a aspectos concretos, como a desvalorização do peso e a proteção dos mexicanos residentes nos EUA.

2) Após anos de dependência quase irrestrita aos EUA, devido ao NAFTA, qual seria o lugar da América Latina na política externa mexicana atualmente?

Essa é uma pergunta difícil e me parece que o próprio México não tem uma resposta. A escolha do México pela associação econômica com os Estados Unidos e o Canadá nos anos de 1980 não quer dizer que o país não seja mais latino-americano. O México também faz parte da América Latina. E esse “duplo pertencimento” faz com que esta região seja um eixo permanente da inserção internacional do país, considerada o principal contrapeso à dependência em relação aos EUA. Isso não significa que os Estados Unidos e a América Latina tenham a mesma prioridade. Em uma conversa com um professor, ele me disse que a prioridade institucional do México são os EUA, mas o coração está na América Latina. Agora com Trump, comenta-se muito sobre a possibilidade de o México aproveitar sua inserção na América Latina para diversificar suas relações econômicas internacionais. Contudo, dois aspectos são importantes. Primeiro, os acordos comerciais vigentes não levam automaticamente à diversificação. No caso do México, eles praticamente não se refletem na balança comercial do país – em 2016, o México exportou para os membros da ALADI 3,3% e importou 2,4% do total. Depois, o atual momento na América Latina é marcado por problemas domésticos, com destaque para a crise no Brasil e na Venezuela e na própria renegociação do NAFTA para o México. Em suma, é na América Latina que se expressa o dilema histórico da política externa mexicana, ou seja, como administrar as relações com os EUA e, simultaneamente, aproveitar-se de outras oportunidades. Não vejo uma solução a curto e médio prazo.

3) Em 2012, o México formou a Aliança do Pacífico junto ao Chile, Colômbia e Peru. Antes disso, em 2010, ele também fez parte da criação da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC). Estes movimentos podem ser lidos como uma reaproximação mexicana à América Latina e América do Sul? No caso da Aliança do Pacífico, seria um movimento em direção à América do sul ou mais em consonância à Ásia?

Há duas leituras que, na minha visão, são complementares. A primeira destaca que as relações do México com a América Latina chegaram a tamanho deterioro no governo de Vicente Fox (2000-2006) que o próximo presidente teria que recompor os vínculos, a começar pelas relações com Cuba. A outra, já aponta razões mais conjunturais que explicariam iniciativas como a CELAC e a Aliança do Pacífico. Essa reaproximação teria sido motivada pelos efeitos da crise de 2008-2009 no México, pela frustração nas relações com os Estados Unidos quando não se formalizou uma política migratória e pelo ambiente político-ideológico hostil na América Latina, quando ascendem governos com orientações distintas das do México. Nesse cenário, eu acho que sim, foram movimentos que sinalizaram para a maior aproximação com a América Latina. Contudo, participar da criação destes mecanismos não quer dizer que os países estarão engajados no futuro. Por serem processos pouco institucionalizados, estão muito sujeitos às prioridades que os Estados lhes atribuem. No caso do México, o próprio Secretário de Relações Exteriores reconheceu que a CELAC não atingiu todo seu potencial, não tendo o presidente participado nas reuniões de 2015 e 2017. A Aliança do Pacífico já é um mecanismo “mais fácil” de ser alavancado. O México já tinha acordo de livre comércio com Chile, Colômbia e Peru antes da sua formalização. Com o comércio em grande parte já liberalizado, fecharam acordos mais setoriais, como de cooperação educativa e para facilitar investimentos. No contexto em que foi criada, trazia uma outra concepção de regionalismo, diferente do Mercosul. Acena para a Ásia porque se coloca como uma iniciativa facilitadora de negócios, aberta para o sistema internacional. Acena também para a América do Sul, mas no contexto em que foi criada, para países com posições político-econômicas similares à mexicana, e não à América do Sul como um bloco homogêneo.

4) O México possui um Acordo de Complementação Econômica com o Mercosul, inclusive, com especificidade para o setor automotivo. No entanto, os países do Mercosul e o bloco em si mesmo não possuem uma relação tão próxima do México, sobretudo devido ao NAFTA. Atualmente, o Mercosul tem procurado se aproximar da Aliança do Pacífico e dos países que a compõe, o que incluiria o México. Assim, como o país enxerga as relações com o Mercosul e com os países que o compõe? Você acha que existe algum tipo de debate na sociedade mexicana sobre o Mercosul e a relação com o México? Se ele existir onde você acha que ele ocorre?

Acho que o Mercosul é muito pouco conhecido no México. Eu lembro que uma vez comentei sobre a facilidade de trânsito de pessoas, e isso foi visto com espanto no México. O caráter social do regionalismo é muito problemático na relação do México com o Canadá e os Estados Unidos. Além disso, o México tem um regionalismo pautado fortemente pela dimensão econômica, com acordos de livre comércio e associação econômica, com baixo interesse em outras áreas. Durante anos, buscou-se um acordo de livre comércio entre o Brasil e o México, o que não se concretizou em grande parte devido à oposição do empresariado. Na aproximação entre o Mercosul e a Aliança do Pacífico, é preciso encontrar complementariedade entre os países. Nesse momento, tal aproximação está inserida na busca do México por maiores oportunidades econômicas, aproveitando-se justamente das alterações políticas no Brasil e na Argentina. Por outro lado, é um contexto de problemas internos graves, onde a crise brasileira e a renegociação do NAFTA são questões mais urgentes. Além do âmbito multilateral, o governo mexicano também procura investir no bilateralismo. Destacam-se as conversas recentes com o Brasil, a Argentina, a União Europeia e as negociações bilaterais com os ex integrantes do TPP.

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