Mulheres protagonistas sob o olhar da mídia: um passo à frente em escala global, três passos atrás em escala subregional.

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Todo ano, na data “comemorativa” do dia 8 de março, é exaltado o empoderamento da mulher na luta contra o machismo. Em 2017, surgiram os movimentos #TimesUp e #MeToo como respostas para as denúncias de assédio sexual e desigualdade salarial na indústria cinematográfica. Ainda que sejam movimentos que nasceram de um nicho específico, tiveram ampla repercussão pela mídia, pois as mulheres protagonistas eram celebridades influentes e a mensagem que queriam transmitir tomou conta das cerimônias de premiação do Oscar, Globo de Ouro, Berlinale, Academia Britânica de Cinema e Televisão (BAFTA)[1].

Pode-se dizer que 2017 foi um ano marcado pelo protagonismo da mulher; de acordo com a Merriam-Webster (dicionário online), “feminismo” foi a palavra mais buscada no dicionário durante esse ano, tanto em decorrência da anual Marcha das Mulheres (dia 8 de março) quanto do surgimento do #MeToo e #TimesUp[2]. A isto soma-se a estreia e grande repercussão do filme “Pantera Negra”, o qual rompe com o estereótipo da mulher negra ao colocá-la nos papeis de líderes na produção científica, na organização militar e na representação política[3].

Se em um cenário global podemos perceber que o protagonismo da mulher está mais evidente na mídia que antes, por outro lado, na nossa escala regional sul-americana observamos que o ciclo de protagonistas à frente de governos se encerra com a troca de governo no Chile, que ocorreu no dia 11 de março.

Michelle Bachelet se despediu de seu segundo mandato com a seguinte frase: “Ya lo dije, yo no vuelvo, él puede querer volver… A esto no vuelvo”[4]. Michelle Bachelet (Chile), Cristina Fernández Kirchner (Argentina) e Dilma Rousseff (Brasil) foram as primeiras mulheres eleitas presidentes na América do Sul, em um período favorável às candidaturas de políticos de centro-esquerda. Foram líderes políticas que tiveram seus mandatos e imagem marcados por análises midiáticas que tratavam de vincular seu desempenho ao fato de serem mulheres.

Esse texto não se propõe a afirmar se seus governos foram bons ou ruins, e nem apresentá-las como melhores que seus antecessores e sucessores, mas argumentar que foram as únicas que, enquanto ocuparam o cargo presidencial, tiveram suas trajetórias políticas e a execução de seus mandatos avaliados por uma questão de gênero. [6]

As teorias feministas argumentam que as relações sociais são marcadas por relações de poder e opressão do homem sobre a mulher, e que o espaço social onde ocorrem essas relações não é neutro de gênero. O espaço social é divido em esferas pública e privada, em que o mundo privado é retratado como lugar da domesticidade, reprodução social e relações pessoais – mundo reservado às mulheres –, e o mundo público sendo o lugar onde ocorrem as principais decisões sobre política e economia – mundo reservado aos homens. A relação que se estabelece é que o mundo privado é subordinado ao mundo público (POSSAS; REIS, 2009).

A mídia tem sido capaz de moldar a opinião pública pela orientação normativa contida na forma em que constroem narrativas, mesmo que as notícias veiculadas sejam de caráter informativo – à diferença dos textos de opinião e editoriais. No que diz respeito ao mundo público, Rubim e Dantas (2017)[7] ressaltam que a mídia tem desempenhado um papel fundamental na legitimação do poder político e na construção de opinião pública sobre determinadas carreiras políticas.

Em relação à imagem da mulher, conforme esta foi ocupando cargos de maior grau hierárquico, a mídia passou a cobrar da mulher não só uma adequação aos padrões estéticos de beleza, mas também uma adequação às regras do jogo político vigente – por sua vez, estes não são questionados, mas naturalizados (RUBIM, DANTAS, 2017).

Nesse estudo, as pesquisadoras examinam como as presidentas Bachelet, Fernandéz Kirchner e Rousseff tiveram sua ascensão aos cargos de maior hierarquia e seus mandatos desqualificados por uma questão de gênero através da cobertura de mídia. Para tanto, utilizam as notas das imprensas chilenas, argentinas e brasileiras, matérias telejornalísticas e dados de monitoramento de mídia no período compreendido entre 2006 e 2016, analisando-as sob a metodologia da teoria da “educação crítica da mídia”, na qual a leitura do conteúdo deve ser feita de maneira articulada às dinâmicas de relações e instituições sociais. Nesta leitura, a mídia é capaz de moldar a opinião publica ao associar valor à imagem.

Segundo Rubim e Dantas (2017), a mídia retratou a ascendência dessas três mulheres ao mundo político como resultado do sucesso de seus antecessores, além de terem coberto as campanhas presidenciais com exigências estéticas e comportamentais, e pela alusão da maternidade como elemento essencial do gênero feminino.

Em relação aos seus mandatos, principalmente nos dois últimos anos que antecederam o final daqueles, a mídia retratou as presidentas como mulheres incapazes de lidar com a situação econômica, classificando-as como mulheres autoritárias e em situação de isolamento, além de incluir especulações sobre o estado de saúde das mesmas e seu envelhecimento. As autoras chamam a atenção para o fato de características que, quando associadas ao masculino, são naturalizadas ou exaltadas, mas quando associadas à mulher, tem conotação negativa: agressividade, centralização, arrogância. Essas características, por sua vez, contribuíram para formar uma imagem de Bachelet como líder fraca por ser demasiadamente conciliadora e para o declínio das imagens de Cristina Fernández Kirchner e Dilma Rousseff – as quais foram reeleitas com altos índices de popularidade.

Desta forma, a mídia tem contribuído para formar uma opinião pública de que mulheres não podem ocupar os espaços de poder público. Uma vez que o façam, sua ascensão política será justificada pela existência de um homem responsável por isso e, além disso, se articulará uma opinião pública de que mulheres não são capazes de lidar com dificuldades e/ou crises políticas e econômicas, caracterizado suas ações de maneira negativa. Ao desempenhar esse papel, a mídia nega a transposição do espaço privado para o espaço público pelo protagonismo da mulher, como se dissesse que mulheres não pertencem ao mundo político sob a justificativa de que esse jogo não foi feito para e nem ocupado por elas.

[1] Disponível em: https://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2018/01/19/metoo-e-times-up-entenda-as-iniciativas-da-hollywood-contra-o-assedio.htm; https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/debate-sobre-metoo-se-impoe-na-abertura-da-berlinale.ghtml; https://claudia.abril.com.br/noticias/bafta-pede-que-mulheres-usem-preto-para-apoiar-o-metoo/. Acesso em: 15 mar. 2018.

[2] Disponível em: https://revistamarieclaire.globo.com/Noticias/noticia/2017/12/feminismo-e-eleita-palavra-do-ano-por-dicionario.html. Acesso em: 15 mar. 2018.

[3] Disponível em: https://www.washingtonpost.com/news/soloish/wp/2018/02/23/the-women-of-black-panther-are-empowered-not-just-in-politics-and-war-but-also-in-love/?utm_term=.fd3de31222ea. Acesso em: 15 mar. 2018.

[4] Disponível em: https://www.eldinamo.cl/nacional/2018/03/11/michelle-bachelet-a-esto-no-vuelvo/. Acesso em: 15 mar. 2018.

[5] Lamas (2013, p. 12) define o gênero como “resultado da produção de normas culturais sobre o comportamento de homens e mulheres, mediado pela complexa interação de um amplo espectro de instituições económicas, sociais, políticas e religiosas”. LAMAS, María. El género: la construcción social de la diferencia. Grupo Editorial Miguel Ángel Pornia, 2013. Disponível em: em: http://repositorio.ciem.ucr.ac.cr/jspui/handle/123456789/154

[6] POSSAS, Lídia; Reis, Sarah. Reflexões feministas acerca das Relações Internacionais. In: MATHIAS, Suzeley (Org.). Sob o signo de Atena: gênero na diplomacia e nas Forças Armadas. São Paulo: Editora Unesp: Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas, 2009, p. 229 – 243.

[7] RUBIM, Linda; DANTAS, Fernanda. Presidentas em declínio: A mídia e os estereótipos sobre a incapacidade das mulheres na política. Revista Comunicação Midiática, v. 12, n. 2, p. 70- 85, 2017.

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