A China e a Integração Regional Latino-Americana: interesses convergentes?

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Juan Notaro, presidente executivo do FONPLATA, e Jeff Yan, CEO da China-Lac Cooperation Fund (IMAGEM do FONPLATA)

O início do século XXI representou um novo cenário internacional, não somente pela expansão da globalização produtiva e da crescente financeirização do capital centrado nos Estados Unidos, mas também pelo crescimento econômico chinês. Nesse período a China é considerada o fenômeno fundamental para o funcionamento do capitalismo, no qual com sua incorporação altera-se a dinâmica presente e impacta sobretudo as relações existentes do “centro” com a América Latina, tanto através de certa diminuição da influência que os Estados Unidos detinha na região, como da retração dos fluxos comerciais do mesmo com os países latino-americanos (CHILIATTO-LEITE, 2017).

O crescimento da inserção chinesa na América Latina dialoga diretamente com o período de reconfiguração das instituições regionais latino-americanas (2009-2012), as quais foram até então instigadas e viabilizadas principalmente através da atuação externa brasileira durante os governos de Lula da Silva. O aprofundamento das relações com a China, assim como o redirecionamento das políticas nacionais na conformação e reestruturação dos mecanismos regionais existentes, se deu em um período onde a demanda pelos produtos primários dos países da região estava aquecida e os preços das commodities agrícolas e minerais mantinham-se elevados. Entretanto, de acordo com Rodriguez (2012) o relacionamento dos países latino-americanos com a China são marcados pela repetição dos padrões de troca norte-sul, o qual geraria a reprimarização das economias desses países (JAEGER, 2015; RAMANZINI JR.; MARIANO, 2014).

Dessa maneira, os benefícios da relação dos países latino-americanos com a China não é visto em uma dinâmica de complementaridade regional, ao contrário, é apontado como um ator cujas ações no continente têm resultado na diminuição do interesse pela integração regional por parte dos países da região e, em específico, no caso brasileiro, tem gerado o desinteresse dos setores domésticos que anteriormente apoiavam a dinâmica e política brasileira para com as estratégias integracionistas na região (CHILIATTO-LEITE, 2017; JAEGER, 2015; RAMANZINI JR.; MARIANO, 2014).

Em resumo, ao ganhar cada vez mais importância na região, a China, desde meados dos anos 2000, constituiu-se como um fator exógeno de complicação do desenvolvimento da integração sul-americana, repercutindo diretamente nos interesses brasileiros para com a região e nos esforços dos países vizinhos para com os projetos regionais já existentes (RAMANZINI JR.; MARIANO, 2014), da mesma forma que também implicou em mudanças nas relações entre os Estados Unidos e a região (CHILIATTO-LEITE, 2017).

No que se refere ao interesse chinês com a América Latina, são pontuados seus objetivos domésticos por suprimento de matérias-primas e energia, assim como vislumbra-se a região como um mercado importador de seus produtos tecnológicos em sua estratégia de inserção internacional. Países como a Costa Rica, o Chile e Peru têm acordos de livre comércio com a China, e os países do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) estabelecerem em Junho de 2012 uma declaração conjunta entre o bloco e a China na busca por fortalecer a cooperação econômica e comercial. Ainda que não se apontem efetivos benefícios ou malefícios da relação entre os países da América Latina e a China em relação à integração regional, Chiliatto-Leite (2017) entende que “a conformação desse novo centro e a reprodução de estruturas produtivas dos padrões de desenvolvimento da região estão na essência das hipóteses que tentam explicar as dificuldades da integração regional da América Latina” (CHILIATTO-LEITE, 2017, p. 204).

Ainda assim, desde o marco apontado por Ramanzini Jr. e Mariano (2014), o principal foco do governo chinês na América Latina tem sido assumir projetos de infraestrutura física, assim como garantir financiamentos de longo prazo, colocando-se à disposição dos países da região que no período recente vêm passando por instabilidade política e econômica, e em troca tendo acesso às matérias primas necessárias em suas indústrias, energia (petróleo) e principalmente mercado consumidor.

Já inserida em inúmeros projetos de infraestrutura em diversos países da África como a Zâmbia, que produz cobre, e o Quênia, com a produção de petróleo, a China se inseriu com maior força na América do Sul a partir da assinatura de dois acordos, um com a Venezuela em meados de 2014, e outro com a Argentina no começo de 2015. O acordo assinado pelo presidente chinês Xi Jinping e o presidente venezuelano Nicolás Maduro significou um grande avanço da China na América do Sul, no qual a China firmou até 2015, 38 acordos de cooperação e comerciais se propondo ao investimento de aproximadamente US$ 18 bilhões para desenvolvimento de projetos e desenvolvimento da infraestrutura no transporte, além de mais US$ 20 bi para tentar diminuir os efeitos econômicos no país em relação ao preço do petróleo, acordado em janeiro de 2015 (KAIMAN, 2015).

Em acréscimo, a China fechou no fim de 2014 um acordo com a Argentina, no qual o país propôs financiar 11 bilhões de dólares ao país sul-americano. A Argentina, envolta em uma situação de crise política e econômica, anunciou a necessidade de ajuda financeira para pagar suas dívidas públicas acumuladas, necessitando aumentar sua reserva para dar vida ao seu mercado financeiro e evitar contínuas revoltas no país, que enfrenta uma alta inflação interna. O recurso chinês aplicado no país também será usado em projetos de infraestrutura, como a criação de duas hidrelétricas (ARGENTINA, 2014).

Em visão contrária aos autores destacados anteriormente, de acordo com Jaeger (2015) os objetivos da China na América do Sul, seja a partir de seu desenvolvimento interno, ampliação da sua inserção e reconhecimento internacional, assim como através de investimentos em infraestrutura para assegurar o abastecimento de matérias-primas e fomentar o mercado para seus produtos industrializados, resultariam na promoção da integração física regional. Tal visão se constrói na afirmação de que, ao contrário das oscilações político-econômicas no cenário regional, a infraestrutura é perene, permanecendo constante apesar de mudanças no processo integracionista.

Tal aporte financeiro chinês nas obras de infraestrutura na América Latina também é facilitado porque, “ao contrário da maior parte das potências ocidentais, bem como o FMI e o Banco Mundial, a China não impõe condicionalidades políticas aos países nos quais investe e concede empréstimos” (JAEGER, 2015, p. 29-30).

Por fim, nos dias 28 e 29 de Junho de 2018 o presidente do Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata (FONPLATA, sigla em espanhol), um dos principais bancos multilaterais regionais de fomento na América do Sul – composto pelos governos da Argentina, Bolívia Brasil, Paraguai e Uruguai) –, e integrante do Comitê Coordenador Técnico (CCT) do Fórum Técnico do Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento (COSIPLAN), participou da última Assembleia do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS (NBD) e de reunião com o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas (BAII). Durante entrevista realizada, o presidente do FONPLATA, Juan Notaro, afirmou que o banco está disposto a se colocar como um canal de cooperação entre a China e os países latino-americanos, no qual ademais de trabalhar com o NDB, visto como importante mecanismo para a América Latina, busca colaborar também com o BAII na identificação de projetos importantes para a América Latina, principalmente no âmbito da infraestrutura e logística (FONPLATA, 2018).

Resta a nós, portanto, continuar a acompanhar o desenvolvimento dos aportes financeiros e da relação chinesa com a dinâmica regional latino-americana para poder apontar benefícios ou barreiras para a integração da região, principalmente a partir do cenário atual no qual retorna ao debate latino-americano o modelo do regionalismo aberto apoiado nos ideais de privatização de capitais e abertura de mercados. Ademais, em um cenário onde já não há mais aportes realizados à infraestrutura pela estrutura brasileira de financiamento com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), após os inúmeros escândalos de corrupção e lavagem de dinheiro do governo nacional e empresas brasileiras, com superfaturamento e desvio de recurso de obras de infraestrutura dentro do país e nos países sul-americanos, a China ganha cada vez mais espaço para investir.

Referências Bibliográficas:

ARGENTINA. Argentina fecha acordo com a China para obter US$ 11 bi. O Globo, 2014. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/economia/argentina-fecha-acordo-comchina-para-obter-us-11-bi-13860754#ixzz3PeBGa3i3>. Acesso em 10/10/2014

CHILIATTO-LEITE, M. V. 2017. 261f. Integração constrangida na América Latina: velhos e novos problemas do subdesenvolvimento no início do século XXI. TESE (Ciências Econômicas) – Programa de Pós-Graduação em Ciências Econômicas do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, Jullho/2017.

FONPLATA. FONPLATA, “un puente” de cooperación entre China y países latinoamericanos. FONPLATA. Notícias. 2018. Disponível em: <http://www.fonplata.org/comunicaciones/noticias/item/2793-fonplata-cooperacion-china-paises-latinoamericanos.html>. Acesso em: 25/06/2018.

JAEGER, B. C. O Papel da República Popular da China na Construção de Infraestrutura na América do Sul e os Efeitos sobre a Integração Sul-Americana. OIKOS, Rio de Janeiro, vol. 14, n. 2, p. 19-35, 2015.

KAIMAN, J. China agrees to invest $20bn in Venezuela to help offset effects of oil price slump. The Guardian. 2015. Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2015/jan/08/china-venezuela-20bn-loansfinancing-nicolas-maduro-beijing>. Acesso em: 18/01/2015

MARIANO, M. P.; RAMANZINI Jr. H.; ALMEIDA, R. A. R. O Brasil e a Integração na América do Sul: Uma análise dos últimos dez anos (2003-2013). Revista Relações Internacionais, Lisboa, n. 41, p. 123-134, mar. 2014.

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