As eleições italianas e as incertezas no horizonte político europeu

Italian Northern League leader Matteo Salvini speaks during a political rally with a banner reading "Italian first" in the back, in Milan, Italy February 24, 2018.  REUTERS/Tony Gentile

Desde as últimas eleições nacionais da França (maio de 2017) e da Alemanha (setembro de 2017), o clima político da União Europeia (UE) parecia mais ameno e esperançoso. A sombra do Brexit[1] ainda pairava sobre Bruxelas, sede das instituições da EU, mas ao menos os candidatos alinhados ao discurso eurocético da França e da Alemanha haviam sido derrotados nas urnas. O primeiro semestre de 2018, no entanto, trouxe uma surpresa: o resultado das eleições legislativas na Itália, realizadas em 4 de março. Ainda que as pesquisas eleitorais tivessem indicado o favoritismo de algumas legendas e de certas tendências políticas, não era esperado um resultado tão fragmentado: a legenda com melhor desempenho (Movimento Cinco Estrelas) obteve 32% dos votos, número distante dos 40% necessários para a formação da maioria.  Os partidos da coalizão de centro direita obtiveram 37%, com destaque para a ex-Liga Norte, atual Liga, com 17% dos votos.

O novo cenário que emergiu das eleições consolidou o Movimento Cinco Estrelas (M5E) como principal força política atual da península e marcou a ascensão da Liga, que alcançou seu melhor desempenho em um pleito nacional. Outro dado importante se refere à divisão dos votos: o sul do país apoiou maciçamente o M5E, enquanto a Liga obteve a maioria dos votos em seu reduto político tradicional, o norte da península. Tais números representam uma derrota para os partidos tradicionais e de centro-esquerda, especialmente o Partido Democrático (PD) do ex-primeiro ministro Matteo Renzi. Cabe lembrar que o PD já havia sofrido uma derrota nas urnas em 2016, na ocasião do referendo constitucional que culminou com a renúncia de Renzi. Agora, após o novo revés eleitoral, o ex-primeiro ministro declarou que deixará também o comando do partido. Do outro lado do espectro político, a legenda de centro-direita Força Itália, cujo líder é o ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi e que também representa uma das vertentes mais tradicionais da política italiana, obteve apenas 14% dos votos válidos, um de seus piores resultados.

Nos últimos anos, o humor da sociedade italiana já indicava uma profunda insatisfação com os rumos do país e uma inclinação às legendas populistas que se apresentavam como alternativas ao establishment italiano, especialmente o Movimento Cinco Estrelas e a Liga. Fundado em 2009 pelo comediante Beppe Grillo e pelo empresário Gianroberto Casaleggio, o M5E reivindica como principais bandeiras a democracia direta, a luta anticorrupção, o ambientalismo e a transversalidade ideológica (ou pós-ideológica, nas palavras de Grillo), visto que não se define nos parâmetros de direita ou esquerda. A Liga foi fundada em 1991, à época nomeada de Liga Norte, após a fusão de diversos movimentos autonomistas da região norte da Itália. Define-se como direita e tem fortes características nacionalistas, sustentando um discurso anti-imigração radical e o lema político “Prima gli italiani”, que significa “os italianos em primeiro lugar”.

Em comum, ambas as legendas têm posicionamentos eurocéticos, ou seja, acreditam que a União Europeia trouxe mais malefícios do que vantagens para os estados nacionais. Os postulantes para o cargo de primeiro-ministro das legendas em questão são figuras controversas, especialmente Matteo Salvini, da Liga, cujos discursos populistas são impregnados de conteúdo racista e xenófobo. Contrário às políticas fiscais e monetárias da União Europeia, Salvini defende o protecionismo comercial da Itália e possui estreitas relações com outros líderes eurocéticos, como Marine Le Pen, da França e Geert Wilders, da Holanda. Luigi di Magio, do M5E, é napolitano e também flerta com a extrema direita, mas tem moderado seu discurso e acenado uma posição mais amigável em relação à União Europeia, contrariando alguns setores de sua legenda.

Certamente, a situação econômica na Itália é um dos fatores centrais que explicam a ascensão desses partidos. Salários estagnados, baixo crescimento econômico e alto desemprego compõem o quadro italiano, que não conseguiu se recuperar da grande crise econômica de 2008-2009 e da recessão do biênio 2012-2013. As restrições impostas pelo arranjo monetário da zona do euro constrangem mecanismos de política monetária, os quais, conforme argumentam alguns, poderiam devolver algum tipo de competitividade à economia italiana. No entanto, ainda que o atual primeiro ministro Paolo Gentiloni tenha afirmado que recentemente a Itália havia apresentado pequenos sucessos econômicos, um terço dos jovens abaixo dos 25 anos continuam desempregados, o dobro da média europeia. Dessa forma, o trauma da estagnação crônica que abate o povo italiano provocou e alimenta tensões sociais, que se inflamaram ainda mais pela crise migratória neste último ciclo eleitoral.

De fato, os vencedores da eleição têm um longo caminho pela frente. No horizonte político, por um lado, existe a possibilidade de uma aliança entre o populista Movimento Cinco Estrelas (M5E) e a Liga. De outro, se não houver acordo, o presidente italiano, Sergio Mattarella, poderia indicar um governo sem expressividade, o que talvez acarrete numa baixa governabilidade e pequena influência no bloco europeu. Ainda, podem ser convocadas novas eleições. De todo modo, o ambiente instável italiano escancara a falência do sistema partidário do país e a grande derrota da esquerda italiana. Nesse sentido, a formação de um governo estável, que possa conduzir a Itália a uma nova situação política e econômica, parece improvável. No que se refere à UE, sendo a Itália um de seus países fundadores e a terceira maior economia da região, os resultados das eleições nacionais acentuam as dissonâncias e provocam instabilidades, além de fortalecer os demais movimentos eurocéticos do continente. O novo cenário se tornará mais claro a partir do dia 23 de março, quando a Câmara e o Senado escolherão seus respectivos presidentes.

 

REFERÊNCIAS

DONADIO, Rachel. Two Ways to Read Italy’s Election Results. The Atlantic. 5 de março de 2018. Disponível em: <https://www.theatlantic.com/international/archive/2018/03/italy-election-european-union/554900/>

HOROWITZ, Jason. Why Italy’s Insular Election Is More Important Than It Looks. New York Times. 2 de março de 2018. Disponível em: <https://mobile.nytimes.com/2018/03/02/world/europe/italy-election-europe.html?referer=http://m.facebook.com>

HOROWITZ, Jason. In Italy Election, Anti-E.U. Views Pay Off for Far Right and Populists. New York Times. 4 de março de 2018.

Disponível em: < https://www.nytimes.com/2018/03/04/world/europe/italy-election.html>

ITÁLIA, Governo di. Elezioni 2018. 4 de março de 2018. Disponível em: < http://elezioni.interno.gov.it/camera/scrutini/20180304/scrutiniCI>

[1] Acrônimo para “British Exit”, referente à decisão do Reino Unido de se retirar da União Europeia após um referendo popular realizado em 23 de junho de 2016.

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