Por uma outra integração na América do Sul

mosaicoCapa

A integração regional na América do Sul foi tema de recente palestra proferida pelo professor Antonio Jorge Ramalho no Palácio Itamaraty. Na oportunidade, Ramalho debateu com os presentes a atual conjuntura da integração sul-americana, tendo como foco a atuação da UNASUL e da Escola Sul-Americana de Defesa, órgão do qual é dirigente no organismo. Os debates e reflexões acerca do estado da integração sul-americano dão-se em um momento crítico, em que o desgaste corrente no interior do bloco tem sido tratado em uma série de publicações do Observatório do Regionalismo, bem como por diversos especialistas da área nos últimos meses [1][2][3].

Durante a exposição de Ramalho, seguida das intervenções de embaixadores da região e de diplomatas brasileiros, um momento foi de especial atenção, por sua capacidade de destoar da gramática convencional nesse tema. Sugeriu-se a possibilidade de se pensar outras formas de se promover o bloco, tomando o futebol, uma paixão global por excelência, como uma via de afiançar o espírito de cooperação entre as nações sul-americanas. Passado o primeiro momento de incredulidade, com direito a considerar a sugestão um tanto quanto ingênua, o que se mantém é a tarefa de imaginar uma outra integração possível.

Embora haja clareza quanto ao objetivo da UNASUL de construir “um espaço de integração e união no âmbito cultural, social, econômico e político entre seus povos”, há incertezas quanto aos meios empregados na sua consecução. Dadas as características próprias de seu desenho institucional (baixa institucionalidade, forte peso intergovernamental), e aquelas oriundas da [falta de] vontade política, a integração e a união entre povos referidas acima não se realizam na prática. O regionalismo emulado pelo bloco está relacionado a uma coordenação conjunta de projetos de cooperação setoriais entre os países sul-americanos. Logo, é suposto que a integração para a UNASUL adquire outro significado.

A integração, para assim ser chamada, requer-se mais ampla que uma cooperação de tipo política ou técnica. É exigida uma transferência de certa competência decisória do Estado para a estrutura institucional gestora desse processo, bem como uma expectativa de maior perenidade no tempo e de abrangência ampliada de diversos atores da sociedade[5].

Diante dessa conjuntura, examinar as perspectivas vindouras e repensar das estratégias regionais estão na ordem do dia de acadêmicos e profissionais da área. Quase sempre as alternativas postas sob a mesa são marcadas por perspectivas convencionais de integração, que se voltam para temáticas como a eliminação de barreiras comerciais, a interligação da infraestrutura regional, e a cooperação em defesa. É complexo o ofício de se pensar meios alternativos a estes que se comprometem com a construção de uma identidade regional, cujo produtor maior seja a criação de confiança mútua, um sentimento de união e solidariedade entre os povos da América do Sul.

Uma Copa UNASUL de Futebol?

O esporte, mais especificamente os torneios esportivos, carrega a potencialidade de pavimentar o caminho para a criação de um ambiente politicamente favorável entre nações, e, em último caso, propiciar a cooperação política entre os países.

Por ocasião da Copa do Mundo de futebol na Rússia, Brasil e Argentina estabeleceram acordo para a instalação de consulado temporário em São Petersburgo destinado ao atendimento de compatriotas de ambos os países. O fato de essa iniciativa limitar-se ao período do torneio mundial – um mês – e destinada a gerar efeitos de insignificante projeção política – por se tratar da realização de serviços consulares ordinários a esse tipo de burocracia estatal -, a parceria reafirma boas práticas bilaterais, gera contato entre corpos burocráticos e, por isso, pode representar uma experiência embrionário para aprofundamento da cooperação nessa área.

“O esporte favorece e fortalece vínculos de aproximação dos povos. A comunhão de afinidades e a conquista de simpatias transbordam para instâncias governamentais, empresariais e jornalísticas, otimizando os recursos de natureza esportiva na comunicação social do poder público, na propaganda institucional, na divulgação internacional dos países e na geração de oportunidades mercadológicas” [6].

Parte da literatura de Relações Internacionais tem demonstrado a relação entre esporte e política. O envolvimento do futebol nas agendas governamentais e sócio-políticas foi desenvolvido em Amazarray [7]. A ligação entre esporte, poder e relações internacionais é ainda extensivamente trabalhada em Vasconcellos [8]. Mais recentemente, Acosta [9] reúne uma obra coletiva de diversos artigos voltados para a temática da geopolítica e da geo-economia do futebol sob a luz das ciências sociais. Contudo, essas abordagens quase sempre privilegiam a utilização do futebol como ferramenta de projeção de poder do Estado (soft power, ou poder brando) e de reforço da identidade nacional (nacionalismo). Há ainda grande jornada para a agenda de pesquisa da área no sentido de abranger a relação possível entre essa modalidade esportiva e os processos de integração regional.

Na perspectiva dos Estados, a realização de eventos esportivos cria oportunidades para transações diplomáticas, encontros oficiais de Alto Nível e reuniões entre nações multiculturais. Ações coordenadas na valorização do esporte acarretam reuniões governamentais e investimentos da iniciativa privada porque conformam via prioritária de promoção cultural e institucional, além de realizarem perspectivas de negócios, intercâmbio comercial-tecnológico, prestação de serviços e fluxos informacionais que vão além da fronteira do esporte [10].

Também não é novidade o papel social que o esporte carrega em ambientes multiculturais. Sob o pano de fundo da atividade esportiva está a capacidade de promover a inclusão das diferentes nacionalidades e de fazer da afirmação das diferenças um capital positivo nas sociabilidades de diversos escopos. A exemplo disso, no Brasil, a ONG Adus realiza o Campeonato Multicultural desde 2014, com a participação de jogadores nacionais e refugiados de Haiti, Mali, Congo, Síria, Angola, Burkina Faso e Gâmbia. De acordo com seus organizadores, a iniciativa objetiva a inserção e integração de refugiados na sociedade, bem como permite a ampliação da rede de relacionamentos [11]. A mesma lógica por de trás dessa iniciativa local pode estar no bojo de empreendimentos de escala regional.

O esporte é uma atividade recreativa que cumpre uma função social importante para a inclusão social, além de participar naturalmente do dia-a-dia das mais remotas comunidades. Para além da grande penetrabilidade das organizações esportivas mundo afora, há ainda o fato de serem perceptíveis no cotidiano da sociedade. É o caso dos clubes de futebol, das associações de torcedores, e os empreendimentos de marca e produtos que integram a indústria futebolística e, em última instância, o povo como um todo. Uma vez que a competência do esporte fosse transferida para um plano coordenado de iniciativas de integração regional no âmbito de organizações como a UNASUL, essa potencialidade poderia resultar em novos espaços de cooperação e união do subcontinente.

Em termos culturais, essa cooperação poderia significar um componente a mais no reforço da sul-americanidade, que é o próprio estímulo à construção de uma “identidade sul-americana” almejada pela UNASUL. Em relação aos brasileiros, sabe-se que o senso de pertença à América do Sul é pouco estimulado sob o ponto de vista dos povos. A realização de um evento com tal magnitude impacta diretamente no aumento do trânsito entre povos das diferentes nacionalidades da América do Sul para o país anfitrião do evento. A integração física, nesse caso, mostra-se complementar para conectar os centros urbanos, facilitar o fluxo de pessoas, desenvolver as redes de comunicação, entre outros.

Reavivar o espírito da integração

A UNASUL é uma espécie de arcabouço onde se costuram projetos de cooperação intergovernamental em diversas áreas temáticas. No momento em que o ambiente intergovernamental é desestimulante, é preciso pensar maneiras de seus resultados auferirem maior legitimidade perante as sociedades sul-americanas e, quem sabe, tornar o significado da integração mais perceptivo do cidadão comum. No bojo da estratégia esportiva, há a tentativa de preencher de maior concretude o sentido de união de nações contida em sua sigla.

Nos caminhos da integração, não há garantias de sucesso e nem do transbordamento de boas práticas para outros setores. A própria UNASUL demonstrou na prática como os setores do bloco podem ter ritmos e dinâmicas distintos uns dos outros. No entanto, a tarefa de se pensar a integração por outros meios é por si só útil diante do desmantelamento do esforço coletivo de uma década. Nas palavras do historiador “A integração não é destino ou processo sem retorno. É projeto, e projetos podem fenecer em conjunturas históricas adversas ”[12].


** Agradeço ao amigo e pesquisador Lennon Oliveira, cuja colaboração foi essencial nesse texto


[1] NOLTE, Detlef. MIJARES, Víctor. La crisis de Unasur y la desconstrucción de Sudamérica. El Espectador. Bogotá, 23 abr. 2018.. Disponível em: https://www.elespectador.com/noticias/el-mundo/la-crisis-de-unasur-y-la-deconstruccion-de-sudamerica-articulo-751730. Acesso em: 01 ago. 2018.

[2] NOLTE, D.; MIJARES, V. M. Regionalismo posthegemónico en crisis.¿Por qué la Unasur se desintegra? Foreign Affairs Latinoamérica, jul. 2018.

[3] SANAHUJA, José Antonio, COMINI, Nicolás. Unasur: ¿‘Sudamexit’ o la estrategia de la silla vacía?. Esglobal, Madrid, 04 may. 2018.

[4] FERREIRA, M. A. S. V. A crise da UNASUL como promotora da paz regional. MUNDORAMA, v. 11, p. 1-1, 2018. Disponível em: http://www.mundorama.net/?p=24677. Acesso em: 01 ago. 2018.

[5] Mariano, Karina. Regionalismo na América do Sul: um novo esquema de análise e a experiência do Mercosul. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2015. P. 21.

[6] VASCONCELLOS, Douglas Wanderley de. Esporte, poder e relações internacionais. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2008. P. 25.

[7] AMAZARRAY, I. C. Futebol: o esporte como ferramenta política, seu papel diplomático e o prestígio internacional. (Trabalho de Conclusão de Graduação). UFRGS, Porto Alegre, 2011.

[8] VASCONCELLOS, Douglas Wanderley de. Esporte, poder e relações internacionais. Brasília : Fundação Alexandre de Gusmão, 2008.

[9] ACOSTA, Willy Soto. (Org.). Política global y fútbol: el deporte como preocupación de las ciencias sociales. Heredia: CLACSO, IDESPO, Universidad Nacional, 2018.

[10] Idem.

[11] https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2017/05/futebol-e-elemento-de-integracao-de-refugiados-na-sociedade-brasileira

[12] Vidigal, Carlos Eduardo. O Cone-Sul no Século XXI. In: Cervo, Amado; Rapoport Mario (org.). História do Cone Sul. 2ª edição. Rio de Janeiro: Revan, 2015, p. 379.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *