As repercussões de Trump para o regionalismo europeu

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Imagem- Fonte: BBC – 

A eleição de Donald Trump, no último dia 09 de novembro, repercutiu no continente europeu em diversas instâncias e dimensões. Desde as relações estratégico-militares, como as econômico-comerciais, políticas, no âmbito da União Europeia, mas também na própria conformação doméstica das políticas nacionais de alguns países europeus, como a França. Isso porque, para diversos políticos europeus, a eleição de Trump representa a possibilidade da ascensão definitiva ao poder de uma classe política mais nacionalista, com um discurso mais aliado ao espectro ideológico da extrema-direita.

Nos âmbitos domésticos, a líder do partido francês Frente Nacional, de extrema-direita, Marine Le Pen, tão logo saiu o resultado da eleição norte-americana, aproveitou para parabenizar Trump. De acordo com Le Pen, a vitória do republicano demonstra uma sanção nas elites políticas e na grande mídia, ao mesmo tempo em que reforçaria a vontade popular. Outros líderes do mesmo espectro ideológico, como Frauke Petry, na Alemanha, e Geert Wilders, na Holanda, olharam o resultado eleitoral de forma muito semelhante. Assim, Trump representaria um ganho de força destes líderes para as próximas eleições em seus respectivos países, com um discurso nacionalista, protecionista, duramente crítico quanto aos imigrantes em seus respectivos países. Importante lembrar que Le Pen, após o resultado do Brexit na UE, pediu para um Frexit, ou seja, uma saída da França do processo de integração europeu.

Desta forma, o fenômeno Trump pode gerar também consequências na própria UE. Martin Schultz, presidente do Parlamento Europeu, classificou a eleição de Trump como um momento muito difícil, mas ressaltou a amenização do discurso do “Trump eleito” frente ao “Trump concorrente”. Por sua vez, Donald Tusk, Presidente do Conselho Europeu, demonstrou uma reação diplomática, bem como Jean Claude Juncker, convidando-o para um encontro com a UE. Em contrapartida, a vitória de Trump também pode significar um ganho de força para as negociações favoráveis ao Brexit, uma vez que o novo presidente norte-americano se demonstrou partidário da saída do Reino Unido, desta forma, a atual Primeira-Ministra britânica Theresa May pode ter ganhado um aliado externo nas negociações. Além disso, no dia 12 de novembro, Nigel Farage, líder do Partido de Independência do Reino Unido (UKIP), um dos mais proeminentes articuladores da campanha pelo Brexit, se encontrou com Donald Trump.

Outro ponto a ser considerado, é a possibilidade de um freio nas negociações entre Estados Unidos e União Europeia para a consolidação do Tratado Trans-Atlântico (Transatlantic Trade and Ivestiment Partnership – TTIP), uma vez que o presidente eleito se demonstrou crítico destes acordos comerciais, incluindo também na equação o já negociado, mas não ratificado, Tratado Transpacífico, ou Parceria Transpacífico (Trans-Pacific Partenership – TPP). A Comissária de Comércio da UE, Cecília Malström, comentou que as negociações podem ser colocadas em espera por tempo indefinido, devido ao resultado eleitoral. Ao longo da campanha, o candidato eleito argumentava que os tratados de livre-comércio na forma em que foram ou são negociados pelos EUA afetam a empregabilidade dos trabalhadores industriais norte-americanos e que, portanto, devem ser repensados. Na mesma linha, o próprio Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), entre EUA, México e Canadá, poderá assistir reflexos da eleição de Trump em sua formatação, como já fora discutido aqui no Observatório.

Por fim, a União Europeia ainda sofre com incertezas frente à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), uma vez que o magnata norte-americano, durante a campanha, fez críticas quanto ao modelo da OTAN, sobretudo quanto aos gastos que os EUA possuem com a organização, reiterando em entrevista ao New York Times, feita em julho deste ano, que muitos dos países europeus não pagam as contas da organização. Outro ponto político-estratégico a ser considerado é a suposta proximidade entre Trump e Vladimir Putin, o presidente russo, indicando uma aproximação entre os dois países, diferente do que vinha ocorrendo no período Obama, o que implicaria de alguma forma, nas relações geopolíticas entre os dois países, levando em consideração que a Rússia e a União Europeia estabelecem uma relação geopolítica complicada frente à correlação de forças no continente europeu, especialmente no leste europeu.

Em suma, é importante salientar a diferença entre o Trump candidato e o Trump presidente, o primeiro precisava angariar votos de um eleitorado estadunidense descrente com o establishment político-econômico, o segundo terá que lidar com o jogo político e burocrático, seja no campo doméstico, seja no campo internacional. Desta maneira, nos próximos meses, podemos assistir a certa moderação no discurso do presidente eleito. No entanto, o discurso radicalizado que auxiliou Trump na ascensão à Casa Branca, longe de ser novidade no continente europeu, se inflama nas figuras políticas de vários países do velho continente que criticam profundamente o processo de integração europeu. Neste contexto, a UE assiste à ascensão de Trump com profundas desconfianças e receios do que estará por vir nos próximos quatro anos.

PARA MAIS INFORMAÇÃO (REFERÊNCIAS)

BBC – Por que vitória de Trump pode ser segundo baque para União Europeia já abalada por Brexit

DW – Populistas europeus enaltecem vitória de Trump

G1 – Rússia diz ter mantido contato com campanha de Trump durante eleição

Bloomberg – EU Sees Trump Freezing Talks on Trans-Atlantic Trade Pact

TheNYTimes – Transcript: Donald Trump on NATO, Turkey’s Coup Attempt and the World

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